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A inovação no cotidiano das escolas


Não é de hoje que os especialistas em educação ressaltam a necessidade de criar estratégias capazes de tornar o aprendizado nas escolas mais interessante para os alunos. Alguns falam em redução de currículos, outros em inclusão de disciplinas que tenham relação mais próxima com a realidade dos jovens, isto sem falar na corrente que defende a utilização em larga escala de recursos tecnológicos.

Em comum entre essas e outras ações está o fato de dependerem de fatores externos, como a disposição das autoridades em aprovar novas diretrizes para o ensino, ou para comprar equipamentos, por exemplo. No entanto, há soluções para incrementar o trabalho pedagógico que dependem apenas da criatividade. É o que tem acontecido, por exemplo, nas escolas que participam do Programa Inovar para Crescer, uma iniciativa da Associação Comercial do Rio de Janeiro e que tem como objetivo fomentar uma cultura de inovação nas escolas.

Pelo projeto, as instituições de ensino participantes podem inscrever trabalhos realizados por seus alunos. A única exigência é que eles representem um produto inovador. Não se trata de uma invenção, mas de um bem ou serviço que seja produzido a partir de outro já existente e que tenha potencial para trazer alguma contribuição para melhorar a qualidade de vida dos indivíduos.

E os trabalhos feitos no ano passado mostram que os estudantes se destacam, quando são estimulados a colocar em prática o espírito empreendedor. Entre as produções vencedoras, estavam inovações simples, mas que podem servir como alternativa para resolver problemas enfrentados pelo cidadão no dia a dia.

Um exemplo é o Projeto do Leite ao Pão, criado pelos alunos do Colégio Estadual Comendador Valentin dos Santos Diniz, em São Gonçalo, mais conhecido como Núcleo Avançado de Educação em Tecnologia de Alimentos e Gestão de Cooperativismo (Nata). Sob a orientação do professor Ricardo Geada, os estudantes criaram uma massa de pão que tem como um dos principais ingredientes o soro do leite, líquido proveniente da produção de queijos e que é, em geral, descartado após o processo de elaboração.

“Percebíamos que jogava-se muito soro fora. E aí, pensamos: por que não fazer diferente? Daí, pensamos em criar essa massa de pão. Nossa ideia, inicialmente, era preparar um produto que pudesse ser utilizado na merenda escolar. Porém, ele pode até ser produzido em escala para ser comercializado no mercado”, comentou Everson Pereira Alcântara Pádua, um dos alunos que elaboraram o projeto.

Não é por acaso que o pão de soro, como é chamado o produto, foi pensado inicialmente para a merenda escolar. O líquido é rico em nutrientes que ajudam no desenvolvimento nutricional das crianças. Mas, o projeto também tem sua vertente ambiental. Estima-se que, para cada quilo de queijo produzido, sejam gerados nove litros de soro. E como não há processo de reaproveitamento desse líquido, o material é jogado, em geral, nos rios, o que provoca a redução taxa de oxigênio nas águas que, por sua vez, tem como consequência a mortandade de peixes. Para Emerson, projetos que incentivam a inovação têm outras vantagens.

“O primeiro aspecto é que faz com que nos tornemos pessoas que pensam nos problemas da sociedade e buscam soluções para eles. Além disso, torna o ensino mais interessante, pois temos a oportunidade de produzir um conhecimento que tem condições de ser usado em prol da sociedade”, destacou o estudante.

De um grupo de alunos do Colégio Israelita Brasileiro Scholem Aleichem (A. Liessin) veio uma ideia que tem tudo para facilitar a vida de milhares de pessoas cegas. É a bengala eletrônica, que tem como principal característica emitir um sinal sonoro quando sua extremidade se aproxima de algum objeto.

O equipamento é uma bengala em que a parte que fica mais próxima do chão, possui três sensores. Eles emitem ondas eletromagnéticas que batem nos objetos próximos e, quando voltam, acionam o alarme sonoro. É possível identificar obstáculos à frente e nas laterais da bengala, a uma distância, que é regulável, 1 a 3 metros.

A ideia de criar uma bengala eletrônica surgiu de uma visita de um grupo de alunos do A. Liessin a um lar de idosos. Foi lá que eles perceberam que, para os cegos, seria interessante um equipamento que emitisse um sinal sonoro quando objetos estivessem próximos, principalmente orelhões, em que a parte superior projeta-se à frente da base.

Segundo Fernando Fukelman, um dos que fizeram parte do grupo, a bengala foi desenvolvida ao longo de sete meses de trabalho. “Já começamos, inclusive, a trabalhar em uma segunda versão, que seria mais leve e com outras funcionalidades”, comentou Fernando, ressaltando que participar de uma atividade como essa gera estímulo para o estudante. “Isso torna o trabalho na escola bastante interessante, pois é um tipo de atividade que desenvolve a criatividade. É uma forma de se trabalhar com a tecnologia na sala de aula”, comentou Fernando.

Escolas já criam núcleos específicos para inovação
A participação das escolas no Programa Inovar para Crescer já incentiva as instituições a realizarem, de forma sistemática, atividades que incentivam o desenvolvimento do espírito empreendedor entre seus alunos. Algumas, inclusive, já criaram núcleos de inovação, para aproveitarem o potencial criativo dos estudantes.

É o caso, por exemplo, do Colégio Mercúrio, localizado na Pavuna. Entre os projetos vencedores da edição do Prêmio Inovar para Crescer, de 2011, estava o do Concreto Ambiental por um grupo de alunos da escola. Feito a partir de sacolas plásticas e garrafas pet, o produto é 5% mais resistente que o concreto comum e é mais flexível. Por ser mais leve, também possui custo menor, principalmente no transporte. Porém, a maior vantagem é a possibilidade de dar uma destinação produtiva às milhões de toneladas de plastico despejadas no meio ambiente.

Segundo o professor Luiz Carlos Ferreira, coordenador geral do Centro de Pesquisas Químicas Industriais do Colégio Mercúrio, a escola já incentivava, com frequência, os alunos a prepararem inovações, por meio da realização de feiras anuais onde os alunos apresentavam seus trabalhos. Ao criar um centro de pesquisas, a escola buscou potencializar isso, abrindo espaço para aqueles que mais se destacavam.

Segundo o professor, é comum alunos do centro de pesquisas serem encaminhados para estágios em empresas. Ele destaca também outros benefícios para os estudantes. “Participar de atividades de inovação desenvolve os alunos sob muitos aspectos. Abre a mente do estudante e faz com que estejam prontos para enfrentar desafios os mais diversos no seu cotidiano. Ou seja, preparam o estudante para o mundo”, destaca Luiz Carlos Ferreira.

Diretora da Escola Técnica Estadual Mercedes Mendes Teixeira, vinculada à Faetec, a professora Sonia Regina Santos ressaltou que a instituição realiza uma feira anual de tecnologia. Foi dos trabalhos produzidos no colégio, inclusive, que ficou entre os vencedores: o bueiro coletor. O equipamento é semelhante a um bueiro comum. No entanto, ele tem um reservatório para retenção de lixo. A proposta é que o produto seja ligado a sensores luminosos que avisem quando é necessário fazer a coleta do material retido.

Segundo a diretora, incentivar os estudantes a trabalharem com inovação traz uma série de benefícios para a formação escolar. “Eles aprendem a trabalhar em equipe. Aprendem que um bom projeto não depende só de uma boa ideia. É fundamental a participação de todos. Além disso, torna o aluno mais consciente de seu papel como cidadão, na medida em que tem consciência da função que eles têm em relação ao planeta”, destacou a professora Sonia Regina Santos.

Próxima oficina do Pince é no fim de abril
Este ano, serão realizadas mais cinco oficinas do Programa Inovar para Crescer. A expectativa é de que a próxima, em abril, seja um workshop sobre inovação, promovido pelo Sebrae-RJ. As outras devem ocorrer em maio, junho, setembro e outubro.

As inscrições para as oficinas do Programa são gratuitas. Nelas, os professores e alunos recebem orientações de especialistas para realizarem trabalhos na área de inovação. Qualquer escola pode participar das oficinas. Porém, mesmo as que não levarem estudantes a esses eventos podem inscrever projetos na área de inovação para concorrer ao Prêmio Inovar para Crescer, que será entregue em novembro. As inscrições podem ser feitas por email ou telefone. Os itens que farão parte da premiação serão divulgados em breve.

Segundo Marilia Brito, vice-presidente do Conselho Empresarial de Inovação e Tecnologia da ACRJ, a criação de núcleos de inovação, pelas escolas, é um dos principais legados dos seis anos de realização do Pince. “Estes núcleos geram projetos. E, este ano, um dos objetivos é buscar empresas interessadas em investir nesses projetos, para transformá-los em produtos para o mercado”, destacou Marilia Brito.

Segundo o coordenador do Pince, Edison Borba, em agosto, ocorrerá o lançamento de um livro com os melhores trabalhos do Pince nos últimos anos. Ele destacou que o projeto tem contribuído para estabelecer uma cultura de inovação nas escolas. “Um dos aspectos que nos deixam mais animados é o que chamamos de propaganda boca a boca. Os professores e alunos vêm às oficinas, gostam da atividade e trazem, na edição seguinte, outros colegas e estudantes. É isso que tem impulsionado o Pince nos últimos seis anos”, destacou o professor Edison Borba.

Trabalhos apresentados na primeira oficina do Pince, em 2012

Projeto Concreto Ambiental, do Colégio Mercúrio —
Professores orientadores: Luiz Carlos do Nascimento Pereira e Thiago Santos de Oliveira. Alunos: Ane Caroline Freire, Fernanda Marques de Sousa, Thayane Vitorino de Lima e Bruno Henrique de Medeiros Mendes.

Projeto Quadro Multifuncional Braille, do Colégio Estadual Júlia Kubitschek — Professora orientadora: Olanova Scalzo Neves Rocha Nunes. Alunos: Lais Augusta de S. Santos, Vitória Costa dos Santos, Leonardo Gabriel Portela e Vitória Perla Contreras da Silva.

Projeto Papel-Cimento, do Polo de Educação pelo Trabalho Fernando de Azevedo — Professor orientador: Baltazar dos Reis Vieira. Alunos: Ismael P. Mendes de Souza, Lorran Augusto Nunes Póvoa e Matheus Dávila Machado.

Projeto Bengala Eletrônica, do Colégio Israelita Brasileiro — Professor orientador: Charles Esteves Lima. Alunos: Bernardo Honigbaum, Fernando Fukelman, Henrique Sion, Daniel Frydman e Renzo.

Projeto Bueiro Coletor, da Escola Técnica Estadual Mercedes Mendes Teixeira — Professor orientador: Paulo Roberto Espírito Santo Camacho. Alunos: Alessandra Faria da Silva, Guilherme Messias da Silva, Larissa de Carvalho Bezerra, Mayara Dione Rocha Mariano e Isabela Nunes de Albuquerque.

Projeto do Leite ao Pão, do Colégio Estadual Comendador Valentin dos Santos Diniz — Professor orientador: Ricardo Geada. Alunos: Everson Pereira Alcântara Pádua e Paschoal de Faria.

Serviço
[email protected]
www.pince.com.br
Tel: (21) 8876-2901

Por: Diego Da - [email protected]
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