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Alfabetização longe do nível aceitável no país


Especialistas são unânimes em afirmar que uma das causas dos sérios problemas na educação do país, especialmente na segunda etapa do ensino fundamental e no ensino médio, e a falta de uma base relativa aos primeiros anos de estudo. Parte das causas são conhecidas de algum tempo: uma parcela ainda pequena dos brasileiros, menos de 30% das crianças, não têm acesso à pré-escola e, com isso, não têm a oportunidade de desenvolver habilidades cognitivas que ajudam, e muito, o aprendizado em outras etapas do ensino.

Também já se sabe qual é a outra parte do problema. Ninguém nega que as falhas no processo de alfabetização também contribuem de forma decisiva para o desempenho ruim nas outras etapas de aprendizado. O que pouco se sabia, até agora, era sobre o impacto dos erros cometidos no processo de formação das crianças nos primeiros anos do ensino fundamental. Equívocos que têm uma dimensão preocupante, como destacam os dados da Prova ABC, uma avaliação nacional realizada pelo Movimento Todos pela Educação, em parceria com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anysio Teixeira (Inep), a Fundação Cesgranrio e o Instituto Paulo Montenegro (vinculado ao Ibope).

Os resultados, divulgados na última semana, deveriam deixar todos os prefeitos do país em estado de alerta, caso estivessem efetivamente preocupados em ofertar uma educação de qualidade. Das crianças que participaram, menos da metade (44,5%) demonstraram saber ler e entender o que leram. E este indicador, por si só alarmante, foi o melhor constatado ao final da avaliação.

Quando são analisadas outras duas competências fundamentais para o desenvolvimento cognitivo de qualquer estudante, a escrita e o raciocínio lógico, o quadro é muito pior. Em Matemática, só 33,3% tiveram desempenho adequado. Em relação há capacidade que uma criança, ao final dos 8 anos, deveria ter de colocar suas ideias no papel, só 30,1% saíram-se bem neste quesito.

Diretora-executiva do Movimento Todos pela Educação, Priscila Cruz pondera que a prova ABC traz uma espécie de fotografia da qualidade da alfabetização dos alunos brasileiros. Pelas características da amostra envolvida, não é possível, por exemplo, comparar com a primeira edição da avaliação nacional. Mas, ainda assim, segundo ela, os dados sinalizam para a necessidade de uma atenção maior ao processo de alfabetização, principalmente em relação à escrita e à Matemática. “Diante da necessidade de dar conta do direito à alfabetização plena a 100% das crianças, ainda estamos muito aquém do que deveríamos”, ressaltou Priscila Cruz.

Não é por acaso que o Todos pela Educação realiza uma prova para avaliar o grau de domínio pleno da leitura e da escrita nos primeiros anos de escolarização. Uma das metas estratégicas para o setor educacional, propostas pelo movimento para serem cumpridas até 2022, é justamente a de que todas as crianças estejam plenamente alfabetizadas até 8 anos de idade. Para Priscila Cruz, apesar dos resultados ruins registrados em mais uma edição da Prova ABC, ainda há como atingir esta meta, desde que exista compromisso com a causa, por parte do poder público.

“Se as prefeituras direcionarem o foco para esta prioridade, com políticas vigorosas e bem implementadas, é possível sim dar um grande salto na qualidade da alfabetização das crianças. Há cidades que conseguiram isso”, salientou a especialista.

Quadro é alarmante nas
regiões mais pobres do país
A Alfabetização nos primeiros anos da escolarização é tão estratégica que o Ministério da Educação (MEC) lançou, este ano, um Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic), uma das maiores apostas do governo na área de Educação. O objetivo é evidente: fazer com que as próximas gerações de estudantes cheguem com uma base melhor para enfrentar as etapas subsequentes do ensino.

Uma das ações previstas para o Pnaic é uma avaliação nacional, similar à que é aplicada pelo Movimento Todos pela Educação. E, a julgar pelos resultados da Prova ABC, o governo terá muito trabalho para também atingir o objetivo de alfabetizar todas as crianças até 8 anos de idade. E o gargalo maior está nas regiões mais pobres. Se, no país, 44,5% dominam de forma plena a leitura, no Norte, este índice é de 27,3% e, no Nordeste, de 30,7%. Se forem considerados apenas os que ficaram na faixa mais baixa de aprendizagem, as médias são de 43,9% (Norte) e 45% (Nordeste), contra 28,1% em termos nacionais.

Em Matemática, o cenário é ainda mais desalentador. Nas duas regiões, quase metade dos alunos ficaram na pior faixa de rendimento na Prova ABC, contra uma média nacional de 29,1%. Considerando-se só as redes públicas, neste caso, mais da metade dos alunos ficaran no pior patamar de desempenho na avaliação. Para Priscila Cruz, este realmente é o momento de um grande pacto em torno da alfabetização, como propõe o MEC.

Para ela, o país deve decidir, efetivamente, se quer resolver a questão da alfabetização das crianças. A especialista ressalta ainda que, se o Brasil não avançar nesta questões, continuará a ter milhões de alunos que, a cada ano, pioram seu nível de rendimento escolar e, muitas vezes, abandonam a escola. “É preciso combater o problema na raiz. E o berço da não-aprendizagem nas outras etapas do ensino é a falta de uma alfabetização correta.”

Incentivar a leitura ajuda até
no aprendizado da Matemática
A Prova ABC também avaliou o desempenho de alunos com e sem o hábito de ler. E uma das constatações é que crianças que gostam de ler têm melhor desenvolvimento nas habilidades relacionadas à Matemática e à Escrita. Na parte de Matemática, entre os alunos que afirmaram gostar muito de leitura, 35% ficaram com os maiores índices de proficiência na prova (175 pontos). Entre os que diziam não terem prazer por ler, a taxa dos que estão na maior faixa de desempenho cai para 28,2%.

Com relação à escrita, o cenário é semelhante. Entre os que tinham contato maior com o livro, a taxa dos que conseguiram 75 pontos ou mais na Prova ABC, melhor nível de proficiência, foi de 32,4%, superior à dos que não tinham o hábito da leitura, com 14%. Para Priscila Cruz, os dados mostram a importância do papel que as famílias têm no incentivo a um contato maior dos filhos com a leitura.

Segundo ela, os familiares, mesmo os que não possuem alto grau de escolaridade, podem ajudar. Há atitudes simples que eles podem tomar, como conversar com o filho sobre uma história que leram juntos, fazer perguntas sobre o livro, entre outras. “Isso tudo ajuda na compreensão do texto”, afirma a diretora executiva, ressaltando que o envolvimento dos pais tem outra vantagem. “É fundamental a família mostrar que valoriza o aprendizado. Na medida em que a criança percebe isto, sente-se mais estimulada a aprender”, completa a especialista.

Pela Prova ABC, foram avaliados 54 mil alunos de 1.200 escolas públicas e privadas distribuídas em 600 municípios brasileiros. Metade da amostra é de alunos do 2º ano e a outra metade do 3º ano. Um dos objetivos do Todos pela Educação ao realizar a prova ABC é ter informações para o acompanhamento de uma de suas cinco metas propostas para a educação brasileira, até 2022: a de que todos os estudantes até 8 anos de idade, ou até o 3º ano do ensino fundamental, estejam plenamente alfabetizados. Como o MEC irá realizar uma prova nacional com perfil semelhante, esta é a última aplicada pelo Movimento.

Por: Diego Da - [email protected]
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