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As lições de duas campeãs do vestibular


Figurar na lista dos classificados nas universidades mais concorridas não é das tarefas mais simples. A disputa cresce a cada ano, e a oferta de vagas não acompanha essa acirrada concorrência. Para ser contemplado com o ingresso no ensino superior, o jeito é estudar e se preparar.

A empreitada não é fácil e pode ser confirmada pelos estudantes que chegaram ao topo, com a aprovação na primeira colocação geral em instituições que se destacam pela sua qualidade e rigor durante o processo seletivo, com milhares de candidatos em busca do mesmo objetivo final.

A atriz Bianca Salgueiro, de 18 anos, que interpreta a estudiosa Carolina, na novela "Fina Estampa", da Rede Globo, foi além de sua personagem na telinha. Enquanto na ficção a jovem lidera grupos de estudos, na vida real ela foi a primeira colocada no vestibular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) de 2012, em um concurso que reuniu mais de 45 mil candidatos.

Bianca prestou vestibular para o curso de Engenharia Química e alcançou a marca de 96,75 pontos em 100 possíveis. Contudo, sua preparação foi intensa, alternando dias de gravação com horas ininterruptas de estudos diários. Ela teve que se planejar para conciliar toda essa rotina.

"Em primeiro lugar, tinha que ter muita determinação e disciplina. Gravava duas ou três vezes por semana, mas aproveitava os momentos vagos no recreio, durante as gravações, pois tinha compromisso com a novela", explica.

Todas as sextas-feiras, ela recebia o roteiro com os dias de gravação, que seriam feitas no Projac ou até mesmo em alguma externa. Pela manhã, frequentava as aulas no Colégio Curso pH. Estudava aos sábados também e, em algumas ocasiões, aos domingos. Certo é que todo fim de semana, em pelo menos um dia, ela estava na escola.

"Tentava não estudar no domingo, queria ter a minha folga. Mas só consegui no início do ano. Meus amigos compreendiam a minha luta. Entendiam que era uma fase passageira, que foi importante, amadureci muito, aprendi coisas sobre mim. O terceiro ano é fundamental para isso. Descobri que era tão competitiva, que tinha capacidade de lutar pelo primeiro lugar", acrescenta.

Segredo: não deixar as dúvidas acumularem

O método de estudos adotado foi não deixar a matéria da semana acumular, fazendo todos os exercícios solicitados pelos professores e as provas anteriores dos vestibulares. Por ter Física, Matemática e Química como disciplinas específicas, o colégio destinava um tempo maior para a preparação para elas.

"Lia todos os textos das apostilas do colégio e fazia todas as questões de provas anteriores. No entanto, para as matérias específicas, a carga era bem maior. Mas não se pode esquecer de estudar as disciplinas não-específicas e a redação, que conta muitos pontos."

A profissão de atriz foi a válvula de escape para Bianca. Era o momento de "dar um tempo" nos estudos e voltar o foco totalmente para as gravações. Apesar disso, não perdia um único minuto entre uma cena e outra e voltava as atenções para as matérias da grade curricular. As leituras também eram frequentes durante o trajeto que fazia de carro do colégio ao Projac, que durava cerca de 40 minutos.

A primeira colocação na Uerj não foi suficiente para a jovem. Estudando nos intervalos das gravações e em casa, Bianca passou ainda para a UFRJ e PUC-Rio, onde alcançou pontuação suficiente para adquirir uma bolsa de estudos e que pretende cursar Engenharia Química. No entanto, ela elegeu o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como a prova mais exaustiva.

"O Enem é muito complicado. São 180 questões em dois dias e mais a redação. É bem mais cansativo. Para a PUC, estava muito nervosa. Queria passar com bolsa, por isso que estava mais tensa, o que tornou a prova mais complicada. Na Uerj, estava mais relaxada por não ter toda essa expectativa", relembra a jovem.

Tempo dividido entre o livros e o cuidado com os filhos

Se não precisava conciliar os estudos com uma profissão, muitos obstáculos apareceram na frente de Lívia Valentim Lopes. Duas palavras que podem traduzir sua história recente são superação e dedicação. Isto porque ela foi a primeira colocada geral no vestibular 2012 da Universidade Federal Fluminense (UFF). Esse fato significa ainda mais quando se alcança essa posição tendo que cuidar de dois filhos, um de dez e outro de cinco anos.

Para Lívia, o mais difícil é dividir o tempo de estudos com o cuidado com as crianças. "Estudava pelo menos seis horas além do cursinho. Revia todo dia a matéria estudada no curso na parte manhã e fazia os exercícios para fixação. Na semana dos vestibulares, revisava as matérias, fazia muitos resumos para recordar, tinha muitas anotações. É muito conteúdo, era bom para lembrar, fiz os últimos dez anos de prova da UFF", afirma a caloura, que estudou no Colégio Curso Pensi.

A estudante revelou que conversou muito com a família antes de tomar a decisão de voltar aos estudos, fato que ocorreu em 2010. Principalmente por ter largado o trabalho como fisioterapeuta para se dedicar exclusivamente às matérias, com apoio principalmente do marido, que teve que bancar, motivacional e economicamente, o sonho de passar em Medicina. No entanto, nesse primeiro momento, não obteve classificação para nenhuma instituição.

"Foi duro. Esperei meus filhos terem uma idade para entender. Pedia para eles ficarem quietos para eu poder estudar. Procurava ajudar minha filha quando ela estava em provas. Ainda tinha que estudar com ela, rever a matéria para ajudá-la."

A estudante, de 33 anos, fez 98,02 pontos em 100 possíveis. A marca foi alcançada por meio da bonificação para quem concluiu o ensino médio em escola da rede pública, municipal ou estadual. Formada em Fisioterapia, o curso de Medicina da UFF será sua segunda graduação.

Para campeã da UFF, ter disciplina foi o diferencial

Lívia Lopes sabia que a preparação deveria ser intensa. Por já não ter conseguido a classificação em 2010, sabia que deveria intensificar os estudos, principalmente para a carreira de Medicina, a mais disputada.

O lazer no ano passado foi artigo raro na vida da estudante. Até o meio do ano, um dia na semana era destinado ao convívio familiar. Com o passar do tempo, a cobrança e a quantidade de matérias aumentava, mas sabedora da necessidade de dosar os momentos de descanso, não deixava o conteúdo se acumular.

"É preciso ter conhecimento uniforme, de todas as disciplinas. Não adianta saber muito de uma e deixar uma outra sem conhecer. Nunca virei noite estudando, via muita gente fazendo isso. Dormia oito horas por noite, isso era sagrado para mim. Era meu descanso, é importante para o aprendizado. Respeitava esse horário, para ter um rendimento melhor no dia seguinte, até para aguentar o ritmo de estudos", explica.

As matérias específicas entraram no foco total de estudos após a primeira fase dos vestibulares da UFF e Uerj, e também do Enem. Lívia destaca a importância de não se esquecer, durante o ano, de treinar exaustivamente a redação.

"Minhas específicas eram Química e Biologia, e li dicas de redação. Procurei fazer várias ao longo do ano, reescrevia muitas delas. Lógico que as primeiras foram abaixo do esperado, mas fui melhorando ao longo do ano. O 'x' da questão é a disciplina, esse é o diferencial."

Definir etapas é essencial para sucesso no vestibular


Planejamento. Essa é a palavra-chave destacada por especialistas para guiar todo um ano dedicado aos estudos para o vestibular. Para eles, é importante criar um roteiro de estudos, com base no tempo que o aluno passa na escola e em casa e suas disciplinas específicas. Diretor de ensino e professor do Colégio Curso pH, Rui Alves afirma que o sucesso é um misto de força de vontade e competência do estudante, com a dedicação e responsabilidade para aguentar a estressante maratona. Sem deixar de lado, segundo o diretor, de momentos de lazer.

"É preciso fazer o que mais gosta, algo que possa relaxar e tirar o estudo da cabeça. Navegar pela internet, atividades físicas, cinema. É uma definição pessoal, mas é importantíssimo."

O ano de vestibular é bem desgastante para os estudantes, principalmente para aqueles que não obtiveram êxito nas seleções anteriores. Rui Alves garante que é a hora de mostrar maturidade. "Quem não passou tem a frustração por começar de novo. Precisa se aperfeiçoar e ver o que falhou, os pontos em que está fraco. Se tinha 100 exercícios e não conseguia fazer todos, agora é obrigação. É importante fazer uma autoavaliação, pedir uma ajuda do orientador, conversar com ele", explica.

Já o diretor do Colégio Curso Pensi, Rafael Cunha, avalia como fundamental fazer provas de vestibulares anteriores para se acostumar com o método utilizado por cada banca avaliadora. Uma dica é não depreciar a redação, que é cobrada nos processos seletivos para todas as carreiras e tem peso elevado.

"Tem que fazer muita redação, que vale muito para o Enem e é cobrada em todas as carreiras da Uerj. É fundamental que perceba os conteúdos que são cobrados nos editais. Os vestibulares mudaram muito, não cobram a decoreba de antigamente. O estudante não pode ler todos os livros que vê pela frente, tem que fazer um estudo dirigido. E o professor não pode apenas ensinar, mas deve também encaminhar. Ele é um facilitador do processo."

Por: Marcella Dos - [email protected]
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