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Educação Corporativa, uma tendência nacional


O setor de Recursos Humanos de muitas empresas vem ajustando seu discurso à prática quanto ao fato de seus mais importantes ativos serem as pessoas. Referência nacional na área, Idalberto Chiavenato é um dos maiores defensores da teoria de que, na era da informação, o recurso mais importante deixou de ser o capital financeiro para ser o capital intelectual, baseado no conhecimento. Trocando em miúdos, significa que o recurso de maior relevância na atualidade não é mais o dinheiro, mas o conhecimento. Nunca a teoria administrativa se tornou tão imprescindível para o sucesso do administrador e das organizações.

Independentemente do tamanho ou do ramo que atuam, as empresas percebem cada vez mais a importância da criação de uma vantagem competitiva sustentável: o comprometimento da empresa com o desenvolvimento dos funcionários. Com isso, cada vez mais empresas se dedicam a implementar processos educacionais como fator-chave para a valorização do seu capital intelectual, contribuindo para formação e retenção de profissionais que garantirão seu crescimento e perpetuação no mercado. É nesse contexto que surge a ideia de universidade corporativa, uma resposta organizacional aos desafios dos profissionais responsáveis pelos negócios.

O tema, segundo o presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos do Rio de Janeiro (ABRH-RJ), Fábio Ribeiro, vem ganhando cada vez mais espaço no cenário organizacional. Essa tendência surge dentro do contexto da competitividade de mercado, de acordo com o especialista, diante da evolução dos modelos de gestão e frente às lacunas do modelo educacional. “Muitas empresas criam seus próprios Centros de Ensino, chamados de Universidades Corporativas, que têm por finalidade o desenvolvimento e educação de funcionários, clientes e fornecedores, objetivando atender às estratégias empresariais da organização.” 

No fim de julho foi realizado, no Rio de Janeiro, o II Congresso Nacional de Inovação, Trabalho e Educação Corporativa (Conitec 2012). Foram dois dias de discussões em torno de temas relacionados à educação corporativa reunindo especialistas do setor. O alinhamento estratégico e cultural parece ser o principal fator que leva uma organização a investir na educação corporativa, haja vista a ocorrência nas grandes multinacionais e nas companhias brasileiras internacionalizadas. Cada uma com sua estratégia, mas todas com um mesmo objetivo: qualificação e retenção de mão de obra especializada.

Durante o evento foram apresentados vários cases relacionados às experiências bem sucedidas na área de Educação Corporativa. O Banco do Brasil, por exemplo, mantém sua universidade corporativa há dez anos, com 30 polos espalhados por todo o país. Segundo Martha Mangueira de Figueiredo Ferreira, gerente geral de Gestão de Pessoas do BB no Rio de Janeiro, é um grande desafio atualizar 118 mil funcionários a cada ano. “A sucessão é importante para o BB, por isso temos que formar rapidamente. Temos 8 mil entrantes por ano, 40% sem graduação, e pouco mais de 65% dos funcionários estão com uma média de dez anos de casa”, disse a gerente, que lança mão da educação presencial e a distância para atingir os objetivos da empresa.

Outra palestrante do Conitec 2012, Consuelo Aparecida Sielski Santos, chefe da Universidade Corporativa dos Correios (Unico), revelou duas importantes ações que estão sendo implementadas atualmente. “Serpro, Sebrae, Correios e Caixa Econômica Federal já compartilham conteúdos dos cursos de capacitação de seus empregados através de um portal na internet chamado Unifica, beneficiando mais de 220 mil pessoas. As atividades terão início ainda neste semestre e o portal já despertou o interesse de outras empresas com o mesmo objetivo: descobrir e divulgar seus próprios valores”, disse Consuelo. Mas os Correios vão ainda mais longe. Já está no Ministério da Educação (MEC), um pedido de credenciamento da Unico como faculdade para ministrar uma graduação em Gestão Pública.

A Universidade Corporativa da Petrobras, que sediou o evento, é, atualmente, responsável pela capacitação de 40% da força de trabalho de toda a empresa, de acordo com sua gerente de Desenvolvimento e Recursos Humanos, Mária Alves Fernandes de Oliveira. “A multiplicação do conhecimento, para nós, é a atividade mais importante. A Universidade Petrobras conta, no momento, com 60.683 alunos. Em 2011, administramos cursos em educação continuada para 224.572 funcionários, em todos os segmentos, e mantemos uma média de 84 horas-aula/ano em capacitação, acima até da média da American Society for Trainning & Development, que é de 55 horas/ano”, disse, na sua apresentação.

Fábio Ribeiro, da ABRH-RJ, explicou que a preocupação geral com Educação Corporativa e T&D (treinamento e desenvolvimento) é mais uma consequência da nossa atual situação econômica. O especialista ressalta que existe, sim, um movimento global de que é preciso capacitar, mas a unanimidade ainda é a necessidade de treinar mais as pessoas para o trabalho. “Esse grau de investimento, se mais para treinamento ou para capacitação, vai depender do que vale a pena para a empresa. São, geralmente, as empresas públicas e as grandes multinacionais que conseguem perceber o ganho da educação corporativa, porque geralmente o funcionário permanece ali mais tempo.”

Ribeiro ainda faz um parêntese: diz que é preciso frisar que o conceito de universidade corporativa se diferencia do centro de T&D tradicional em seus princípios e práticas, pois se trata de um sistema de desenvolvimento de pessoas pautado pela gestão por competências. Resumindo, as universidades corporativas estão para o conceito de competência como os tradicionais centros de T&D estiveram para o conceito de cargo.

Ou seja, enquanto os antigos centros de T&D se preocupam em capacitar e qualificar profissionais em treinamentos específicos para seu cargo, as universidades corporativas têm uma visão bem mais abrangente, procurando disseminar o conceito de educação para todos os níveis da empresa, desenvolvendo sistemas de aprendizagem fundamentados na missão, nos valores e na cultura organizacional, e atuando como ferramenta fundamental ao negocio a partir das competências empresariais.

Evolução do conceito em
pouco mais de uma década
O conceito de Educação Corporativa para Marisa Eboli, uma das pioneiras no assunto, pode ser resumido como um “comprometimento da empresa com a educação e o desenvolvimento dos talentos humanos, visando a ampliar as estratégias de sucesso para organização”. A especialista esteve à frente da pesquisa “Práticas e Resultados da Educação Corporativa 2009”, realizada por estudiosos ligados ao Programa de Pós-Graduação em Administração da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP), que traçou um panorama do setor, considerado consolidado no país.

As grandes empresas atuais, para se manter no mercado globalizado, necessitam estar sempre inovando suas potencialidades, conhecimentos tecnológicos, seus produtos e serviços. Para isso, precisam atrair e reter profissionais qualificados, que busquem sempre novos conhecimentos, que tenham habilidades técnicas e desenvolvam ideias empreendedoras e eficazes. Por outro lado, o modelo educacional, com todas as suas ofertas em instituições, cursos, especializações e formações de ensino, no geral capacita o profissional nas diversas áreas, sem a preocupação de desenvolver habilidades que não sejam referentes a conhecimentos técnicos ou conteúdos específicos de atuação profissional.

Neste contexto, se estabelece um paradoxo entre a exigência de um mercado globalizado versus o produto ofertado pelo modelo educacional, onde, para suprir essa lacuna, é preciso realizar treinamentos para qualificação de seus colaboradores. Porém, investir apenas em treinamentos pontuais não atende mais a velocidade que as informações se processam, o ritmo das mudanças está cada vez mais acelerado, fazendo com que muitas empresas migrem da tradicional área de T&D para área de Educação Corporativa.

De forma geral, a literatura nacional concebe a educação corporativa como um sistema de aprendizagem contínua numa via de mão dupla, onde de um lado encontra-se a organização, que deve oferecer recursos para o desenvolvimento dos talentos humanos mediante suas competências organizacionais e estratégias de negócio, e do outro está o funcionário, que busca o seu desenvolvimento profissional e melhor desempenho em suas atribuições. Dessa forma, ambos os lados saem beneficiados: tanto o funcionário que eleva suas competências individuais, garantindo melhor performance profissional, bem como a empresa que eleva seu capital intelectual e desta forma atua com maior diferencial competitivo frente às demandas do mercado.

Um aspecto importante dessa tendência, na opinião dos especialistas, e que ficou claro durante o Conitec 2012, é que cada vez mais os líderes se envolvam no sistema de educação corporativa, comprometendo-se e participando diretamente do processo de desenvolvimento de suas equipes. Foi mostrado que as companhias que mantém suas ações de educação corporativa contam com um alto comprometimento. O desafio será ter a universidade corporativa promovendo internamente a inovação, o empreendedorismo e a sustentabilidade, além de integrá-la com as demais áreas, em especial com a de gestão de pessoas.

Por: Larica Santos - [email protected]
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