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Educação infantil: um segmento que ainda carece de políticas públicas


O ser humano é um ser pensante. Aprendemos todo o tempo, até mesmo antes de virmos ao mundo. É no útero da mãe que os indivíduos começam a desenvolver suas capacidades de aprendizagem e a receber os primeiros estímulos para aperfeiçoar seus sentidos. Alguns estudos, inclusive, revelam que já aos três meses de gestação, os bebês estão aptos a reconhecer ritmos. Isto indica, previamente, a importância da educação ser iniciada logo cedo e a relevância que o segmento da educação infantil pode ter nos anos iniciais de uma pessoa.

Para o economista americano James Heckman, ganhador do Prêmio Nobel em 2000 pela criação de uma série de métodos precisos para avaliar o sucesso de programas sociais e de educação, a falta de estímulos às crianças nos seus primeiros anos de vida pode custar caro não só para elas, como cidadãos e futuros profissionais, mas para o próprio país. Na opinião do estudioso, isto significa que tentar sedimentar em um adolescente o conhecimento que deveria ter sido apresentado a ele dez anos antes custa mais caro e é menos eficiente. Segundo ele, em alguns casos, os danos são até mesmo irreparáveis.

De acordo com o pesquisador americano, investir em políticas públicas na educação infantil é então uma iniciativa econômica. O investimento no tempo certo pode garantir habilidades responsáveis pelo sucesso do indivíduo na vida, como as capacidades cognitivas, ligadas à possibilidade de enxergar o mundo de forma mais abstrata e lógica, e as não cognitivas, relacionadas ao autocontrole, à motivação e ao comportamento social. Estas, tratam-se de atributos valorizados não só na escola, mas posteriormente pelo mercado de trabalho.

No Brasil, pode-se dizer que a educação infantil é uma das áreas mais comprometidas, o que em linhas gerais culmina em uma inversão de prioridades. Dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2005 mostram que o gasto com ensino superior ainda é muito maior que na educação básica, que tem número de alunos aproximadamente dez vezes maior que nas universidades e faculdades. A desigualdade na alocação dos recursos acaba por ter fortes consequências que banalizam ainda mais este setor, como a evasão escolar e a falta de profissionais qualificados e especializados, entre outros.

Para economista, apenas criar creches não basta
Com base nos resultados, James Heckman defende a criação e instalação de pré-escolas como forma de incentivar o interesse das crianças pelo aprendizado e cultura. No entanto, em seu estudo, ele enfatiza que nada disso é eficiente se não for acompanhado de uma participação efetiva das famílias e também de programas sociais, que possam orientar os pais sobre maneiras de potencializar esta educação. No país, este é um outro complicador, já que na esfera pública, as vagas nas pré-escolas e creches não são suficientes e a procura é, em maior parte, de pais que, por terem que trabalhar em tempo integral, acabam tendo níveis muito baixos de participação na formação destes filhos.

Estas prerrogativas são confirmadas a partir de uma análise do acesso às creches. Apesar do contingente de crianças nas escolas estar aumentando gradualmente (hoje já são mais de 10 milhões) os números mostram que este acesso ainda é muito desigual, e esta discrepância tem origem no nível de escolaridade das mães. Enquanto 85% dos filhos de mães que possuem ensino superior frequenta a escola, apenas 60% das crianças cujas mães não têm estudo frequentam as instituições de ensino (Saeb, 2005). E esta frequência gera impactos não só na infância, mas no desempenho nos testes de proficiência feitos durante o ensino fundamental. Ou seja, a maior parte das crianças que não frequentou a pré-escola mostra atrasos significativos na relação idade x série.

Aloísio Araújo, professor da Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV) há mais de 20 anos e coordenador do livro “Aprendizagem Infantil, uma abordagem multidisciplinar”, concorda com a corrente de James Heckman, e mais que isso, acredita que são necessários investimentos emergenciais na expansão da creche e da pré-escola. “Existem muitas vantagens em investir na educação. Nos próximos anos os maiores investimentos devem ser na educação básica, principalmente na educação infantil”, afirma.

No Rio, apesar da expansão, ainda há demanda por creches
Hoje, a cidade do Rio de Janeiro tem 290 mil crianças na faixa etária de 0 a 3 anos. Destas, 254 mil estão matriculadas na creche. Apesar da política de criação de novas unidades de educação infantil adotada pela prefeitura, desse total, 84 mil estão no atendimento público, o que representa pouco mais de 33%. Com a acessibilidade ainda restrita, um dos maiores desafios do poder público é identificar as crianças que mais precisam das vagas.

Segundo a secretária municipal de educação do Rio, Cláudia Costin, até pouco tempo atrás, o município contava com apenas 30 mil vagas nas creches. Contudo ela afirma que uma expansão vem sendo feita. Recentemente foram abertas mais 14 mil vagas e o intuito é ampliar para 40% do total o número de creches públicas até 2012.

De acordo com a secretária, o plano traçado para prover a expensão com qualidade parte de uma proposta pedagógica pautada não só no cuidado, mas em um olhar integrado que promova também o desenvolvimento cognitivo das crianças, tão enfatizado pela neurociência.

“A educação de qualidade na primeira infância é a base para um desenvolvimento saudável. Através disso, nivelaremos o ensino. Por isso só permitimos a inserção dos bebês nas creches a partir dos 6 meses de idade, pois sabemos a importância do fortalecimento do vínculo familiar nesta etapa. Nosso foco agora será na Zona Oeste, uma das regiões menos beneficiadas com as creches”, diz.

Para que isso aconteça, uma das áreas que terá um olhar mais atento é a formação dos agentes de creche. “Com a intenção de qualificar os agentes, temos oferecido o Curso Normal gratuito a estes profissionais. Cerca de 1.200 de agentes estão se formando este ano. Estamos contando com a ajuda de professores também, que possam atuar nas creches”, frisa Costin.

Na opinião de Maria do Pilar Lacerda, secretária de Educação Básica do Ministério da Educação, uma das maiores preocupações é em relação à visão que os jovens têm hoje do magistério. “Hoje nenhum jovem quer ser professor. Esta é uma grande contradição pois se existe alguém que pode fazer algo pelo magistério são os jovens. Mas quando escolhem essa carreira, é na maior parte das vezes por falta de opção. Com isso, encontramos nas escolas profissionais cada vez menos capacitados. Em contrapartida sabemos que para melhorar os salários e mudar a imagem da profissão é preciso aumentar o orçamento na educação”, afirma.

Brasil ainda tem problemas com a alfabetização
Um estudo feito pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) revela que o país ainda usa métodos ineficazes no processo de alfabetização. A Prova Brasil, ferramenta utilizada pelo Ministério da Educação de 2005 para levantar informações sobre o ensino oferecido em cada município e escola, mostra que metade dos alunos do 5º ano não sabem ler. Este, segundo especialistas, é o maior problema da educação no Brasil.

Uma das conclusões do estudo comprova que, ao contrário do que se tornou crença no Brasil, o método influi de maneira muito forte na eficácia da alfabetização. Há duas décadas, estudos científicos internacionais vêm orientando profundas mudanças nas políticas de alfabetização de diversos países, entre eles o Brasil.

De acordo com a pesquisa, o método mais eficiente hoje é o fônico. Baseado em instruções explícitas sobre a relação entre grafema (letra) e fonema (som), este método é o que apresenta melhores resultados na alfabetização. Outro esclarecimento também vai contra às práticas brasileiras, já que a idade ideal para iniciar o processo de alfabetização é aos seis anos, quando a aprendizagem é mais fácil.

O levantamento foi feito pelo Grupo de Trabalho sobre Educação Infantil, criado em 2007 pela ABC. O trabalho feito pelo grupo durou cinco anos e levou em conta estudos internacionais, a partir da análise das mudanças nas diretrizes de políticas de alfabetização de diferentes países que alteraram suas estratégias nessa área.

Outro dado ainda mais recente que confirma este estudo é o resultado do último Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, 2009). O Brasil ficou em 54º lugar na avaliação, em um ranking de 65 países, atrás de nações como Sérvia, Romênia e Trinidad Tobago. O exame, que analisa, entre outros aspectos, a capacidade de leitura de jovens de 15 anos da rede pública, concluiu que a maioria deles no Brasil apenas identifica palavras ou frases simples e não são capazes de compreender textos.

Opinião
O que falta para a Educação Infantil avançar?

“Entre vários problemas, o de investimento é o mais grave. A desigualdade entre os segmentos é muito grande e o sistema educacional parece estar longe de reverter isso. Faltam também oportunidades para todos, pois o acesso ainda é muito restrito. Um acompanhamento feito de perto poderia estimular os pais a serem mais participativos, o que é fundamental.”
Rosana Reis, coordenadora pedagógica

“No momento, a prefeitura está com um programa muito interessante e já consigo ver alguns avanços. A própria ciência e o meio acadêmico dão evidências de que estamos melhorando. Vejo com muito otimismo o crescimento do Brasil nesta área. Frente aos bons resultados e os investimentos que têm aumentado, só faremos evoluir.”
Tônia Casarim, administradora

“Existe muita carência de profissionais adequados para lidar com as crianças. Mas isso só será possível quando passarem a investir mais na formação dos professores. Além disso, é necessário que seja feita uma manutenção na infraestrutura e na qualidade da escola. Hoje, a educação está precarizada até dentro de casa, pois os mais não conseguem dar uma disciplina correta para os filhos.”
Neilsa Rangel, estudante de Pedagogia

“Precisamos de pessoas mais especializadas atuando neste segmento, pois esta área carece de um conhecimento maior. As famílias também devem ter uma maior integração, e nisto, a escola tem papel fundamental, pois a ausência desse apoio gera abandono e falta de cuidado em relação às crianças. Todos somos responsáveis pela educação.”
Leni Barbosa, contadora

“A ausência de iniciativa do governo é o que falta na educação. É essencial estabelecermos maior prioridade para esse segmento, que é um dos mais importantes na vida de um indivíduo. É necessário acabar com a banalização que a educação infantil vem sofrendo, pois as perdas de uma criança nessa fase dificilmente são recuperadas”
Charles Viçoso, corretor de imóveis

Por: Juliana - [email protected]
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