Folha Dirigida Entrar Assine

Escolas em alerta contra a dengue


Já é rotina. Todos os anos, junto com a chegada do verão, também surge uma preocupação a mais para os brasileiros: a dengue. A doença é causada por um vírus transmitido pela picada do mosquito Aedes Aegypti, que se prolifera em ambientes com água parada e limpa. Trata-se de um mecanismo de transmissão de difícil controle, já que seus ovos são muito resistentes e sobrevivem por até 450 dias, mesmo se o local onde foi depositado o ovo estiver seco, até que a área receba água novamente.

Como sua multiplicação é rápida, é importantíssimo que a população também colabore para interromper o ciclo de transmissão e contaminação. Mas, o poder público tem fazer sua parte, o que não tem ocorrido nos últimos anos, até mesmo pelas epidemias recentes registradas no país. E, entre os especialistas, uma posição é unânime: sem planejamento e medidas preventivas tomadas com antecedência, mais uma vez a doença fará milhares de vítimas pelo país a fora.

Um dos problemas, segundo Silvia Cavalcanti, professora associada do Departamento de Microbiologia e Parasitologia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenadora da pós-graduação na mesma área, é a falta de um projeto mais amplo que possibilite fazer das escolas um espaço de prevenção à dengue. De acordo com ela, até existem programas em escolas e universidades, mas, por eles serem pontuais, não possuem o efeito que poderiam ter.

Outro problema que a especialista apontou é o fato de que, apesar de os perigos da dengue serem mais do que conhecidos, assim como a necessidade de ações planejadas de prevenção, os trabalhos de conscientização começam muito tarde, já próximos ao início do período de chuvas. De acordo com ela, as ações preventivas, na verdade, deveriam ser feitas de forma periódica, ao longo do ano.

Por isso, a especialista teme uma nova epidemia, porém com um agravante, um novo tipo de vírus. “Já sabemos que existem focos da dengue 4 em vária regiões do país. É um vírus que circulou pouco pela população, pois entrou há apenas um ano nas cidades maiores e, provavelmente, explodirá no próximo verão. Ainda temos uma situação atípica, porque, desde o ano passado, a dengue 1 voltou a circular por aqui”, destacou a pesquisadora da UFF.

Governo já reconhece
que pode haver epidemia
E os temores da professora Silvia Cavalcanti, ao que tudo indica, têm boas chances de serem confirmados. O próprio secretário estadual de Saúde, Sérgio Côrtes, em setembro, já havia destacado que a questão preocupa as autoridades públicas do Rio de Janeiro. Segundo ele, há forte possibilidade de ocorrer uma grande epidemia da doença em 2012 que pode até vir a ser a mais grave enfrentada pelo Estado.

Para Hans Dohmann, secretário municipal de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro, o trabalho de conscientização dentro do ambiente escolar é fundamental no combate ao mosquito, já que, de acordo com ele, 82% dos focos da Aedes Aegypti estão em imóveis privados e dois terços das pessoas infectadas pela dengue contraíram a doença dentro de casa.

“A conscientização dos jovens alunos para que cheguem em suas residências e cobrem os cuidados necessários é fundamental para diminuirmos a quantidade de focos dentro dos ambientes domésticos. As crianças têm grande capacidade de mobilização familiar, porque falam e repetem o tempo todo para os pais. É uma mensagem importante”, comentou.

Para a professora Silvia Cavalcanti, o combate à dengue nas escolas, desde que feito de forma estruturada, planejada e permanente, poderia contribuir e muito para reduzir a incidência da doença. Daí a importância da realização de trabalhos de conscientização relacionados à prevenção. E este tipo de ação, segundo a pesquisadora da UFF, é ainda mais eficaz no ambiente educacional, uma vez que as crianças são mais suscetíveis a novas informações.

“Os mais novos correspondem muito bem as mudanças de hábitos. Isso já é aplicado, e funciona, no que diz respeito a economia de água. Por isso, é importante passar essa noção para as crianças, porque assim poderão ajudar na campanha. Contando só com os adultos, percebemos certa resistência”, afirmou Silvia Cavalcanti.

Noções de prevenção
por meio de brincadeiras
A especialista também dá algumas sugestões de como as instituições de ensino podem trabalhar a prevenção da dengue. De acordo com ela, uma das possibilidades é passar os cuidados sobre como prevenir a dengue através de brincadeiras, atividades em grupo, juntando os alunos para inspecionar o ambiente e procurar possíveis focos do mosquito, e filmes educativos, que podem, inclusive, ser disponibilizados na internet para o acesso de casa e, assim, atingir mais pessoas.

“O papel da escola é importante não só para educar as crianças nas ações em casa, mas também no próprio ambiente escolar, onde encontramos, muitas vezes, focos de dengue. A gente está ensinando sobre como combater o mosquito e deixando ele se proliferar do nosso lado. O importante é que isso acaba virando uma grande brincadeira para os estudantes, que passam o que aprenderam para seus pais”, comentou a especialista da UFF, acrescentando que o tratamento da doença é barato, só falta informação. Por ter a ver com a perda de líquidos, beber bastante água é fundamental. “Ainda em casa, as pessoas podem tentar se proteger dos efeitos mais graves. Se isso não for o suficiente, é necessário procurar um posto médico”, completou.

Governos do estado e do município
lançam campanhas de conscientização

Os governos estadual e municipal lançaram ações de prevenção à doença que incluem a conscientização dos alunos das escolas de ambas as redes. As Secretarias de Estado de Educação e de Saúde anunciaram, no mês de outubro, a campanha “10 Minutos contra a Dengue”. O objetivo é incentivar gestores, professores, estudantes e familiares a adotarem práticas rotineiras de combate aos possíveis focos do mosquito transmissor.

A comunidade escolar também está sendo mobilizada a participar do que está sendo chamado de “Operação Dever de Casa”, que pretende levar para dentro das residências as lições aprendidas em ambiente escolar. Além disso, ainda dentro da campanha, a Secretaria de Educação realiza o projeto “Escola Aberta na Luta contra a Dengue”. Alunos de 76 escolas do programa Escola Aberta, iniciativa que promove atividades de lazer aos sábados, participam de palestras de conscientização e prevenção, passeatas, exibição de filmes, espetáculos de dança, música e teatro, oficina de pintura, origami, etc.

No município, foi lançado, também em outubro, o Dia D de Combate à Dengue nas escolas e creches da prefeitura. A ideia é fazer com que as comunidades do entorno, além de professores e alunos, entrem no combate ao Aedes Aegypti. Para isso, estão previstas ações de capacitação de docentes e discentes, com palestras de técnicos da Secretaria de Saúde e Defesa Civil (SMSDC); um mutirão em todas as unidades da rede, com o objetivo de identificar e eliminar possíveis focos do mosquito; e um trabalho pedagógico com os estudantes sobre o assunto.

Além disso, as escolas que atendem ao primeiro segmento (do 1º ao 5º ano do ensino fundamental) devem receber um “Kit Dengue”, produzido pela MultiRio, contendo diversas atividades para serem realizadas junto aos estudantes, como um jogo de tabuleiro, por exemplo. Ainda foram distribuídos, em creches e escolas, cartazes e um DVD com informações a respeito da doença.

O que você sabe sobre a dengue?
Os pequenos alunos que acompanharam o lançamento da campanha contra a Dengue, da prefeitura do Rio, na Escola Municipal Benedito Ottoni, no Maracanã, demonstraram que estão dispostos a entrar na briga. Em diversos momentos da apresentação, eles cantaram “eu não tenho medo de você” para um homem que estava fantasiado de mosquito. Até com base nos casos de familiares que sofreram com a doença, eles mostram preocupação, mas destacam a importância da contribuição de todos para evitar os efeitos de uma possível epidemia.

“Eu conheço os sintomas. A pessoa fica com manchas no corpo, dor de cabeça e febre. Meu tio já teve dengue. Então, acho importante que todo mundo tome cuidado pra evitar que outras pessoas também peguem a doença. Não podemos deixar caixa d’água aberta, água parada em vasos de plantas e temos que virar toas as latas, baldes e potes de cabeça para baixo, pois, assim, a água não fica acumulada.”
Daniel Santos,  9 anos, 4º ano

“Aqui na escola, nós já fizemos vários trabalhos e provas que falavam sobre a dengue. Eu não lembro direito de todos os sintomas da doença, mas sei o que fazer para não deixar os mosquitos se reproduzirem. Aprendi que devemos evitar deixar água parada em vasos e pneus, porque é ali que ele deixa seus ovos. Na minha casa a gente se preocupa bastante, tomamos muito cuidado.”
Danilo Barbosa Silva, 10 anos, 4º ano

“Os sintomas da dengue são febre, dor de cabeça e dor no corpo. Aprendi algumas coisas vendo televisão, outras foram minha professora que falou, minha mãe também me ensinou bastante. É só não deixarmos água parada em nenhum local. É isso que tento fazer, porque é nesse tipo de lugar que eles colocam os ovinhos. E explico isso para minha família, meus amigos e todo mundo que conheço.
Vitória Rangel,  10 anos, 4º ano

“Sei todos os sintomas e o que podemos fazer para prevenir. Inclusive, eu já peguei dengue. Minha mãe achou que o foco poderia estar aqui na escola, mas a gente não sabe. O que a gente faz é sempre lavar a caixa d’água, limpar o prato das plantas e tudo mais que puder para prevenir. Não deixo água parada de jeito nenhum e todos devem fazer o mesmo. Todo mundo me dá parabéns por esta atitude.
Jhessica Alves, 9 anos, 4º ano

Como prevenir?
Não deixe água acumulada em pneus, lajes, vasos de plantas, garrafas e sacos de lixo; mantenha a caixa d’água completamente fechada para impedir a propagação do mosquito; encha de areia os pratinhos dos vasos de plantas para evitar acúmulo de água; e jogue no lixo, conservando-o bem fechado, todo e qualquer objeto que possa acumular água, como garrafas, potes, latas e embalagens vazias.

Sintomas da Dengue
Febre alta, dor de cabeça e nas juntas, manchas vermelhas pelo corpo, podendo ou não haver sangramento em algumas partes do corpo, como nariz, boca e gengivas. Ao serem detectados alguns desses sintomas, o paciente deve buscar imediatamente auxílio médico.

Por: Renata - [email protected]
Assine e tenha acesso completo ao conteúdo do Folha Dirigida
OU

Comentários

NEWSLETTER
Cadastre-se para receber notícias e Informações