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Mudança em curso no ensino superior


Nos últimos anos, o Governo Federal adotou uma política educacional voltada para expansão do ensino superior. Para isso, implementou iniciativas como o Programa Universidade para Todos (ProUni), o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). O resultado da ampliação do acesso foi constatada pelo Censo da Educação Superior, que revelou que o país superou a marca de 7 milhões de matrículas em 2012. Levando-se em consideração graduação e pós-graduação são 7.261.801.

O número representa aumento de 4,4% em relação a 2011. Por outro lado, o crescimento foi inferior ao apresentado no censo anterior. De 2010 para 2011, o número de matrículas cresceu 5,6%. Segundo o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, a diminuição do ritmo aconteceu pela queda na abertura de vagas nas instituições privadas. "O que observamos foram acomodações no ensino privado, com fusões e aquisições, e não a expansão", explicou, satisfeito com o crescimento da rede federal, que registrou aumento superior a 124% no número de ingressantes entre 2002 e 2012 e já contempla cerca de 60% dos ingressos nos cursos de graduação da rede pública.

"Estamos em um sistema em forte expansão, com mais ingressantes que concluintes. Não é tarefa fácil assegurar qualidade da expansão de acordo com a demanda por vagas. Temos um compromisso no MEC de assegurar a qualidade do ensino superior", falou. O total de estudantes que ingressaram no ensino superior em 2012 chegou a 2.747.089, enquanto o número de concluintes foi de 1.050.413.

De acordo com Mercadante, se o ritmo do crescimento for mantido até 2022, será possível chegar a média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e alcançar a meta estabelecida pelo Plano  Nacional de Educação (PNE), atualmente em tramitação no Congresso Nacional, com 34% da população de 18 a 24 anos matriculados no ensino superior ou graduados. A taxa brasileira hoje em dia é de 17,8%.

Os dados, divulgados pelo Ministério da Educação (MEC) na terça-feira, dia 17, em Brasília, ainda mostraram que os 7.037.688 alunos de graduação no Brasil estão distribuídos em 31.866 cursos, oferecidos por 2.416 instituições, sendo 304 públicas e 2.112 particulares. Enquanto o número de matrículas nas instituições públicas cresceu 7%, o aumento na rede particular foi de 3,5%. "No setor privado, após uma fase de grande expansão, vive-se hoje um crescimento tímido, impulsionado principalmente pelos programas de inclusão social do Governo Federal, como o Prouni e Fies", comentou Celso Niskier, presidente do Conselho Empresarial de Educação da Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ) e reitor da Unicarioca, em entrevista à Folha Dirigida publicada no dia 27 de agosto, na qual analisava o cenário da educação superior no país.

Apesar da maior expansão do ensino público superior, as particulares ainda detém a grande maioria das matrículas, com 73% do total. O fato de a maior parte dos estudantes estar matriculada no setor privado leva o professor Celso Niskier a defender uma maior cooperação entre o MEC e as instituições que integram a rede. "Com tal importância, deveria haver mais diálogo e colaboração. Chega de chicotadas, é hora de carinho e colaboração entre governo e instituições privadas em busca de objetivos comuns", ressaltou.

Também na entrevista concedida á Folha Dirigida, o educador lamenta a falta de entendimento entre as partes. "Esperava-se que a criação do Instituto Nacional de Supervisão e Avaliação da Educação Superior (Insaes) fosse pautada por um processo de diálogo entre governo e entidades representativas do setor privado, mas as desconfianças mútuas prevaleceram", disse.

Considerando apenas a rede federal, o número de matrículas cresceu 5,3% de 2011 para 2012, superando a marca de um milhão de estudantes. As instituições federais representam 57,3% da rede pública de educação superior. Segundo o presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), autarquia do MEC e responsável por compilar os dados, Luiz Cláudio da Costa, 1,8 milhão se formam no ensino médio, número inferior ao total de vagas oferecidas. Além disso, o Prouni e o Fies, de acordo com ele, garantem o acesso dos jovens de baixa renda. "Quem quer, tem acesso ao ensino superior", disse.


Oportunidades de emprego impulsionam matrículas nos Superiores de Tecnologia

O Censo também evidenciou a expansão do número de matrículas nos cursos tecnológicos, voltados para atender a demandas específicas do mercado de trabalho. Entre 2011 e 2012, esta modalidade de formação de ensino superior cresceu 8,5%. Ao mesmo tempo, no bacharelado o aumento foi de 4,6% e na de licenciatura de apenas 0,8%.

A principal causa para esta diferença, segundo Antonio de Freitas, membro da Academia Brasileira de Educação (ABE) e pró-reitor de Ensino, Pesquisa e Pós-graduação da Fundação Getúlio Vargas (FGV), está na alta demanda por profissionais com formação tecnológica. "Se você for em Macaé, verá vários profissionais estrangeiros. Como existe demanda, ocorre essa procura. Temos muitas oportunidades de emprego imediato e com bons salários", explicou.

Entretanto, apesar de ser o segmento que mais cresce, o número de matriculados ainda representa um percentual pequeno em comparação com o total, apenas 13,5%. Os de bacharelados e de licenciatura participam com 67,1% e 19,5%, respectivamente. Além disso, as instituições federais de educação tecnológica concentram 1,6% das matrículas, enquanto as universidades são responsáveis por mais de 54%, as faculdades por 28,9% e os centros universitários por 15,4%.

De acordo com Freitas, é preciso mais investimentos na formação tecnológica, já que a maioria dos estudantes, até por falta de informações, acabam optando pelos cursos de graduação tradicionais. "É preciso difundir, como aconteceu no Japão, por exemplo. Precisamos mostrar a importância e as vantagens desta modalidade para os alunos, familiares e coordenadores das escolas, pois são boas fontes de orientação para os vestibulandos indecisos sobre qual carreira vão seguir", comentou, acrescentando que, paralelamente, é necessário melhorar o ensino básico, principalmente nas disciplinas de Matemática, Física e Química.


Tecnologia e flexibilidade são responsáveis pelo crescimento da EAD

Em franca expansão, a educação a distância (EAD) também apareceu com destaque no estudo. O número de matrículas nos cursos de ensino superior nesta modalidade apresentou grande avanço se comparado com o crescimento das graduações presenciais. Entre 2011 e 2012, as matrículas na EAD avançaram 12,2%. No ensino presencial, o crescimento foi de 3,1%.

Com esse crescimento, a EAD já representa mais de 15% do total de matrículas em graduação, sendo 72% em universidades e 23% em centros universitários. Para Antonio Freitas, as dificuldades de universalizar o acesso em um país de grandes dimensões como o Brasil, aliadas ao baixo custo da formação, aos avanços tecnológicos e à conveniência de poder assistir a uma aula de casa, com flexibilidade de horário, são os principais fatores que contribuíram para o avanço da modalidade.

"Acredito que seja uma tendência para os próximos anos. O futuro é esse. Queiram ou não, em algum momento da vida, os mais jovens farão algum tipo de formação a distância, participando de cursos ministrados em outros países. Tenho uma filha que mora em Mato Grosso e assiste aulas da Universidade Stanford sem pagar nada. Então, pedagogicamente, é fundamental que as pessoas se familiarizem", comentou, ressaltando que o crescimento só não foi maior porque o MEC dificultou a criação de novos cursos e fechou alguns já existentes. "A função do governo não deveria ser fechar, mas sim fazer com que funcione, talvez estabelecendo convênios com universidades de qualidade para auxiliar", completou.

A maior parte das matrículas na educação a distância está nos cursos de formação de professores, são 40,4% matriculados em licenciaturas. Os que optaram pelo bacharelados representam 32,3% e por tecnólogos, 27,3%. Na opinião do especialista, a EAD pode ser uma importante ferramenta melhorar a qualidade dos profissionais, principalmente na educação básica. "Hoje, os docentes são frágeis porque se paga muito mal. Então, o que vamos fazer? Despedir todo mundo e começar tudo de novo? Apenas aumentar o salário também não adianta, porque o professor será o mesmo. A única solução é oferecer cursos de qualificação. O presencial é difícil em larga escala, mas a distância é viável", salientou.

Por: Renata - [email protected]
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