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Nas escolas, cada vez mais conteúdo e menos formação


"Mais vale um homem de valor, do que um homem de sucesso". Essa frase de Albert Einstein dialoga com um dos maiores questionamentos da educação: dar importância ao ensino conteudista voltado para o vestibular ou à formação de valores? Em tempos onde os resultados em processos seletivos são o principal cartão de visita das instituições, o papel da escola é posto diariamente em xeque por pais, educadores e alunos.

Conhecidas pelo tradicionalismo, as instituições religiosas buscam oferecer aos alunos um ensino que abranja mais do que uma formação conteudista. É muito comum, nestas escolas, o enfoque no fortalecimento da cidadania e dos valores humanos. Para o Irmão Arno Lunkes, diretor da missão educativa da província Brasil-Chile, uma educação básica mais humanística é essencial, pois ajuda o estudante a lidar melhor com os conflitos e as relações pessoais no mercado do trabalho, qualidade muito buscada pelas empresas.

"Nossos alunos se dão bem profissionalmente porque chegam preparados à sociedade conflitiva e sabem lidar com seus desafios. Isso só ocorre pois eles aprenderam no dia a dia escolar a respeitar o colega que é diferente e também o que não foi educado com ele. Da mesma maneira, esse cidadão estará preparado para chegar na empresa e encontrar pessoas que não terão uma boa relação com ele", destaca Irmão Arno.
 
Casos violentos de grande repercussão sempre levantam discussões a respeito da formação dada pelos pais e também pela escola. Atualmente em debate, a obrigatoriedade das aulas de Ensino Religioso divide opiniões entre aqueles que apoiam esse tipo de conteúdo e os que defendem uma escola laica. Para a professora Marília Conceição, a importância dessa disciplina é falar do "amor ao próximo" nos colégios.

"A gente procura dar uma formação social, colocando a importância dos ensinamentos cristãos, dos valores que formam a pessoa. Sempre coloco que nossa aula é muito importante porque vai ajudar, na vivência do dia a dia, o estudante a ser melhor pessoa, procurar sempre olhar o outro de uma forma mais solidária", afirma a professora de Ensino Religioso da Escola Nossa Senhora do Sagrado Coração.

Críticas à preparação para o vestibular como foco das escolas

A competição para entrar em renomadas universidades ou conquistar as melhores oportunidades na carreira pública fez com que a procura por colégios e cursos de preparação aumentasse. Entretanto, o foco dessas instituições gera discussões a respeito do papel humanístico da educação. Especialistas questionam se a preocupação excessiva com o conteúdo não reduziria os espaços de discussão e reflexão nas escolas.

Em palestra para professores de instituições católicas de Niterói, a doutora em Filosofia Viviane Mosé afirmou que o atual modelo do vestibular transformou a educação em um acúmulo de conteúdos. Segundo a filósofa, esse tipo de seleção limita-se apenas a medir o conhecimentos de fórmulas, regras e leis ao invés de analisar o pensamento crítico do estudante enquanto cidadão.

"Um aluno que decorou todas as fórmulas dos vestibulares, muitas vezes, não sabe nem calcular os juros do cartão de crédito", afirmou Viviane Mosé. Apesar disso, segundo a filósofa, os exames tenderão a avaliar cada vez mais o raciocínio crítico dos estudantes, como é o caso do Enem e do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA, em Inglês). Nesse sentindo, as escolas precisarão reorientar seus modelos educacionais.

Para Paulo Sias, professor de Sociologia e História do Colégio La Salle Abel, um ensino mais crítico passa necessariamente pela valorização das Ciências Humanas. Segundo o professor, as instituições dedicam pouco tempo à esse conteúdo em comparação às outras áreas de conhecimento. O grande prejuízo, nesse caso, é que os espaços de formação do pensamento crítico dos estudantes são reduzidos.

"Se pegarmos o currículo de qualquer escola, o aluno passa cinco manhãs estudando. Nesse período, ele tem, normalmente, dois tempos de História, um de Filosofia e outro de Sociologia. Para um modelo de sociedade e uma proposta educativa que o Enem tem trazido, de uma formação humanística e um cidadão crítico, é muito pouco o estudante passar menos de uma manhã com profissionais da área de Humanas", afirma.

Outra preocupação apontada no foco excessivo em resultados de provas é uma possível falta de atenção à formação de alguns valores importantes na vida dos estudantes. Para o Irmão Arno Lunkes, que também foi diretor do Colégio La Salle Abel, um professor que se limita apenas a lecionar os conteúdos, muitas vezes, não consegue transmitir aos alunos lições de responsabilidade e respeito. Além disso, o religioso aponta um imediatismo excessivo por parte dos familiares.

"A sociedade tende a lidar com o imediato. O raciocínio atual é 'Eu quero que meu filho tire 10, pois se ele tira 10, é um bom aluno'. Mas, na verdade, isso é um grande engano, pois ele apenas está tirando uma nota e não uma qualidade. Se ele não tiver outros recursos pessoais e humanos, não conseguirá fazer nada com esse 10", disse.

Novos valores para a era da Tecnologia

As inovações tecnológicas alteraram não só vida das pessoas, mas também as interações entre indivíduos. As relações entre pais e filhos, chefes e funcionários, professores e estudantes foram profundamente impactadas em uma sociedade que está cada vez mais em rede. Nessa perspectiva, as escolas também precisam se adaptar e transmitir aos alunos os novos valores exigidos pelo mercado de trabalho.

Atualmente, as empresas têm buscado nos funcionários, além da qualificação, a capacidade interação e gestão de pessoas. Segundo Viviane Mosé, ser líder se tornou uma coisa específica, não mais dependente do maior conhecimento na área. Para a filósofa, a sociedade está deixando um modelo de liderança por imposição para assumir uma valorização da capacidade de gestão, mudança que também deverá permear as escolas nos próximos anos.

"O professor caminha para assumir um papel de gestor na sala de aula. O educador não pode mais se comportar como o 'sabe-tudo' em frente aos alunos", disse Viviane Mosé, que também é psicóloga e psicanalista. Papel semelhante deve ser assumido pelos pais, uma vez que os filhos estão se tornando cada vez mais autônomos. Característica que, juntamente com a responsabilidade, é fundamental para o desenvolvimento da educação, segundo a filósofa.

Embora essas transformações nos modelos escolares estejam em curso, a presença da família ainda é e será um fator indispensável na educação e na formação dos jovens. Entretanto, as transmissão de valores não deve mais acontecer pela a imposição de normas. As novas formas de aprendizado se darão através da indução, de acordo com Viviane Mosé.

Nesse sentido, a união entre pais e escolas é fundamental para que a educação continue transmitindo ensinamentos importantes para a vida dos estudantes. "Sem dúvida alguma, os pais são peça fundamental no nosso trabalho para a compreensão e formação dos valores humanos e éticos", destacou Irmã Jussara Alves Raimundo, diretora do Colégio Nossa Senhora das Mercês.
 
Depoimentos

Qual a maior dificuldade de colocar em prática uma formação focada nos valores éticos e humanos?


"A maior dificuldade é fazer a sociedade entender a questão do imediatismo. Nosso grande desafio talvez não seja nem trabalhar o aluno e sim os pais, mostrar para eles que o importante não é o resultado imediato, mas sim a longo prazo. A nota não avalia a qualidade de rendimento, muito pelo contrário, Albert Einstein tirou zero em Matemática e era gênio e Física. O que vai construir a sociedade do futuro não é só conteúdo e sim educação, moral e ética. Os jovens que atearam fogo em índio, em Brasília, tinham nível superior, era filhos de juízes e promotores. Os que bateram em uma moça, achando que ela era prostituta, tinha escolaridade. Na verdade, essas pessoas não tiveram formação, mas sim instrução. A nossa pretensão é formar pessoas e, certamente, pessoas bem formadas têm sucesso."
Professor Alírio Gomes, coordenador de Ensino Médio do La Salle Abel

"Existem uma falsa contradição na ideia que se você está preparando um indivíduo mais humano, mais cidadão, mais ético e mais crítico, você não está preparando-o para o vestibular. E o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tem mostrado bem essa contradição. O aluno que é mais crítico, interpreta melhor o problema da sociedade em que vivemos e sabe discorrer sobre isso, tende a se sair melhor na prova. Ele também vai ter uma vida profissional bem melhor porque vai entender a importância do trabalho em equipe, e que importância os outros seres humanos têm na empresa em que trabalham. É claro que o conteúdo continua sendo importante. Um bom cidadão também deve ter conhecimentos. Mas nós supervalorizamos um ensino conteudista que está fadado a mudar um pouco
seus paradigmas."
Paulo Márcio Sias, professor de Sociologia e História

Por: Daiane Possimoser - [email protected]
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