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No ensino de Matemática, uma equação ainda difícil de resolver


As avaliações externas aplicadas pelas três esferas governamentais nos estudantes da educação básica ainda atestam um verdadeiro tabu. Os índices ainda estão aquém do estipulado nas metas e o ritmo de crescimento está abaixo do esperado, mesmo tendo como referência estatísticas a longo prazo. As médias são calculadas em cima de duas disciplinas básicas, peças-chave para o crescimento da educação brasileira: Matemática e Língua Portuguesa.

Desta forma, as atenções são voltadas especialmente para essas duas matérias, que são a base para o aprendizado das demais. No entanto, a Matemática ainda é considerada por muitos educadores como o grande bicho-papão. Para alterar esse panorama, o professor Thales do Couto Filho garante que é necessário ela seja vista como uma Linguagem e uma Ciência.

"A mesma importância que se deve dar à alfabetização no Português deve ser dedicada à Matemática, a partir das primeiras séries do ensino fundamental. O letramento matemático deve ser feito concomitantemente com o da língua materna. Isso deve ser um compromisso para que o aluno adquira o hábito e não tenha mais dificuldades em identificar termos como regularidade, coleção, sequência. Portanto, creio que, em primeiro lugar, deve-se ter um compromisso de ensinar o que se pode, o que se conhece profundamente e não o que os programas impõem", afirma o docente.

A má fama da disciplina ainda assusta alguns estudantes. Principalmente se os problemas matemáticos parecerem inexplicáveis e a solução, distante. Na opinião da professora de Matemática do Instituto São João Baptista, Fabiana Rodrigues, uma das razões desta dificuldade está no fato de os estudantes, em diversos momentos, sentirem-se incapazes de resolver problemas com enunciados grandes ou com figuras com muitas informações.

"Muitos alunos foram doutrinados na dificuldade da Matemática. O certo seria ensiná-los que todos são capazes de resolver qualquer problema. Um enunciado grande, muitas vezes, pode representar um problema simples, que qualquer um é capaz de resolver, mas a maioria dos jovens de hoje têm dificuldade e boa vontade para interpretar."

Explorar a parte curiosa da matéria é uma alternativa

Há mais de 45 anos ininterruptos dentro de sala de aula, o professor de Matemática do Colégio Metropolitano Roberto Zaremba salienta que muitos docentes se esforçam para derrubar o mito de que a Matemática é o maior bicho-papão entre as disciplinas do currículo regular da educação básica. A sua experiência no magistério o fez colecionar inúmeros casos de sucesso, nas redes particular e pública, e destacou que os alunos encontravam dificuldades por não terem uma base sólida em séries anteriores ou por falta de motivação.

Roberto Zaremba elencou alguns itens que precisam ser melhorados para que o ensino da Matemática e, consequentemente, o seu aprendizado, seja mais prazeroso e eficaz.

"É necessário valorizar o trabalho do professor, oferecendo-lhes salários dignos e uma melhor formação nas próprias universidades. O respeito pelo aluno é fundamental para que a relação docente e discente seja a melhor possível. É importante utilizar os livros didáticos mais adequadamente, associar a disciplina ao cotidiano e a outras matérias e explorar com o estudante a parte divertida e curiosa da Matemática, com jogos e recreações", elenca Zaremba.

Além de valorizar o profissional do magistério, a formação continuada é apontada por Thales do Couto Filho como primordial para o ensino. "A dificuldade surge na visão errada de alguns educadores, que tentam dissociar a Matemática, fazendo com que o aluno não tenha prazer em aprendê-la. A Matemática deve ser ensinada com os seus porquês, deixando claro para os estudantes, e não construindo dogmas."

Exemplo de sucesso na rede municipal


A dificuldade apontada por educadores de associar a Matemática a outras disciplinas, eliminar a mística que a circunda e tornar o aprendizado prazeroso parece ter sido superada pela Escola Municipal Ary Barroso. A unidade, localizada no bairro de Cordovil, foi a primeira colocada da rede no último Ideb. No estado, ficou na 11° posição.

O sucesso, contudo, não veio por acaso. O árduo trabalho, realizado com metas a longo prazo, foi finalmente recompensado. Além da grade curricular da educação básica, a escola oferece reforço, para os alunos com maior dificuldade e realizado por um profissional voluntário, e aprofundamento da disciplina no contraturno para os estudantes, feito pelos docentes.

O diretor da escola, Eduardo Fernandes, revela que, depois de um ano de aulas no contraturno, os alunos têm 80 horas a mais de estudo. Ele cita, ainda, a contribuição dada por uma nova ferramenta implantada pela Secretaria Municipal de Educação (SME), a Educopédia, plataforma online colaborativa de aulas digitais, na qual alunos e professores podem acessar atividades autoexplicativas de forma lúdica e prática, de qualquer lugar e a qualquer hora.

"Desde o ano passado, a Educopédia foi um mecanismo que veio complementar, pois os professores a utilizam para fazer exercícios, o quiz. A aula fica mais agradável e dentro do parâmetro dos adolescentes, com visual melhor e mais atrativo. Somando o trabalho realizado pelo voluntário de reforço para quem está com nota mais baixa, o trabalho que os professores fazem no contraturno e essa ferramenta, notamos que houve uma evolução muito grande no ensino de Matemática. Ficou espelhado nas avaliações externas, como a Prova Brasil e a Prova Rio", explica.

Anualmente, a escola é inscrita na Olimpíada de Matemática. De acordo com o diretor, os jovens aderem à competição de forma intensa e estudam para que o resultado seja positivo. Esse entusiasmo favorece no dia a dia e no aprendizado.

Professor de Matemática da Escola Municipal Ary Barroso há cerca de 15 anos, Carlos José, conhecido popularmente como Carlão, destaca o apoio da direção e da SME e, principalmente o das famílias, que buscam interagir com a escola.

"Os pais dos alunos estão sempre juntos. Uma reunião de pais e professores tem maciça presença da família. Hoje em dia, infelizmente, 80% das escolas estão próximas a comunidades carentes, onde a criança, em geral, é abandonada sozinha para os pais irem trabalhar, isso quando tem alguém em casa. Aqui, sempre que precisamos, o responsável está ao lado da escola."

Participação em olimpíadas pode contribuir com aprendizado


Uma das competições mais importantes do segmento no país, a Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM) é uma competição aberta a todos os estudantes dos ensinos fundamental, médio e superior, das escolas públicas e privadas de todo o Brasil. O nível alto das inúmeras etapas favorece aos estudantes, como preparação e aprendizado da disciplina.

Não há segredo, afirma Victor Hugo, estudante que foi medalhista de prata nas edições de 2011 da OBM e da Olimpíada de Matemática do Estado do Rio de Janeiro (OMERJ). "Penso que o principal é tentar entender bem os conceitos apresentados, usar menos fórmulas possíveis e fazer muitos exercícios."

Acreditar sempre no seu potencial e focar nos objetivos são algumas dicas passadas pelo estudante. Segundo ele, não há mistério na forma de estudar, mas é preciso ter compromisso com a matéria e responsabilidade. "Costumo estudar pelo material dado no meu colégio e por livros voltados para olimpíadas de Matemática. Como já se tornou rotineiro, acabo estudando praticamente todos os dias para isso."

Diretor de ensino do Sistema Elite de Ensino e coordenador regional da Olimpíada Brasileira de Matemática, Luciano Monteiro de Castro critica os professores que não estimulam os alunos a gostarem da disciplina. Para ele, isso os incita a prática da decoreba.

"O problema é a forma como a Matemática é apresentada e ensinada aos alunos. Quando o professor apresenta a matéria de maneira misteriosa ou não relacionada com o conhecimento do estudante, isso acaba tirando o interesse dele. E quando fica desestimulado e não entende, encara a Matemática como algo para se decorar. Em outros países, por exemplo, a visão é diferente. A disciplina é apresentada como algo desafiador e interessante", informa Luciano. Ele completa.

"Quando eu pego uma turma nova e peço para os alunos pensarem na questão, eles ficam parados esperando a resolução. Eles não têm a sensação de algo que podem construir e desenvolver. O professor deve expor em sala de aula maneiras mais construtivas de se entender a Matemática."

Por: Marcella Dos - [email protected]
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