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Novos tempos para a Uerj?


Uma das instituições de ensino superior mais conceituadas do Brasil, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) agregou mais um capítulo em sua história de mais de 60 anos de atividades acadêmicas. Na quarta-feira, dia 4, o reitor Ricardo Vieiralves foi empossado para mais um mandato de quatro anos, sendo o primeiro da história na instituição a conseguir a reeleição. O gestor conseguiu o apoio nas urnas, mas isso não garante paz total. Alguns segmentos da Uerj prometem cobrá-lo pela melhoria da universidade.

O sinal vermelho estava ligado quando Vieiralves assumiu a Uerj em 2008. Sérios problemas estruturais poderiam ser encontrados em diversos prédios, nos corredores, banheiros. As obras emergenciais, que garantem o funcionamento da instituição e a segurança das pessoas, foram feitas, apesar da limitação orçamentária.

De acordo com o presidente da Associação dos Docentes da Uerj (Asduerj), Guilherme Mota, a estrutura física foi recuperada, sem riscos evidentes de quedas de marquises, por exemplo. No entanto, segundo ele, há aspectos que devem ser melhorados.

"Há coisas que têm pouca manutenção, mas não estão em condições muito desfavoráveis, pelo menos na minha unidade. Não temos esse dano da estrutura física, mas em alguns lugares há algumas reclamações. É tudo questão de prioridade. As pessoas reclamam que nos andares mais altos, em dias de chuvas mais intensas, as goteiras aparecem. Se tiver uma manutenção mais periódica, as chances de ter algum problema diminuem."

O reitor Ricardo Vieiralves explicou que a liberação do orçamento anual foi preponderante para repensar o modelo adotado na universidade. Com a previsão de verba para todo o ano, a gestão pode ser pensada e planejada, conferindo maior autonomia à instituição. "Isso é uma verdadeira alforria. Isso permite que o gestor tenha capacidade de gestão. Recompusemos quase toda a infraestrutura da universidade, que estava muito mal. Acabamos de fazer o restante, faltando poucas coisas", avalia.

Promessa de campanha de inúmeros reitores, o restaurante universitário foi alçado como uma das prioridades dos estudantes da Uerj. Foram várias discussões acaloradas por um espaço menos dispendioso para fazer as refeições. Porém, no fim de 2011, o bandejão foi inaugurado. Apesar disso, o preço estipulado para esse primeiro ano ainda está gerando críticas.

"Lutamos muito para que pudéssemos ter o restaurante universitário. Ele foi inaugurado, mas o preço é muito mais alto do que em outros bandejões. Os alunos pagam R$3 para se alimentar. Para uma família de classe média, não é um grande problema. O ideal é que fosse gratuito para um grande setor da universidade ou com preço irrisório, para as pessoas não jogarem fora a comida", alerta Guilherme Mota.

O presidente da Asduerj destaca, ainda, que a luta dos estudantes, por vez, é estender o benefício do restaurante universitário para outros campi da instituição. Solicitação de mais bolsas para estudantes, para reter o aluno dentro da universidade, também é uma das metas do DCE.

"Os estudantes têm procurado, em matéria de luta, levar o restaurante universitário para outros campi, como os de São Gonçalo e Duque de Caxias. Além de solicitar mais bolsas estudantis. Pensando na realidade brasileira, gostaria muito que tivéssemos uma forma de fixar o aluno dentro da universidade. Os alunos assistem às aulas, saem e vão embora, e não vivem a instituição."

Ricardo Vieiralves tem ciência das demandas estudantis e das reclamações acerca do preço das refeições. No entanto, o reitor se justificou, afirmando que o valor a ser pago não sofrerá aumento pelos próximos quatro anos.

"O preço da refeição é de R$3, congelado por 4 anos, e provavelmente os estudantes terão aumento na bolsa. É um restaurante, não é um bandejão. Já ofertamos 35 mil refeições em 15 dias. Estamos comprando mais da metade do valor da refeição. Estamos pagando a empresa com subsídios, afirma o reitor. Ele acredita que, se o preço fosse menor, ainda assim haveria reclamações.

"Se o valor for R$1, o estudante vai reclamar que tem que ser R$0,50. Se for R$0,50, vai dizer que tem ser que R$0,25. Se o preço for R$0,25, vai exigir que seja de graça. E de graça, ele reclama que a comida está ruim. Faz parte da cultura. O que me preocupa é ofertar uma comida de qualidade a um preço acessível. O nosso controle é rigoroso, é feito pelo nosso Instituto de Nutrição", destaca o gestor, confirmando que pretende abrir novos bandejões em outras unidades.

Asduerj cobra projeto de dedicação exclusiva para docentes


Guilherme Mota afirmou que a prioridade da Associação dos Docentes era a aprovação da dedicação exclusiva para os professores da Uerj, única instituição pública brasileira que ainda não a possui. Essa defasagem acadêmica é explicada pela evasão de professores, com perfil de pesquisador, para outras universidades do estado e até do país, que oferecem um plano de cargos e salários mais atrativo.

Esse problema, segundo o presidente da Asduerj, reflete no número de professores substitutos. "Esse profissional deveria suprir ausência emergencial de algum titular. Um dos piores casos é o do Instituto de Matemática e Estatística, do qual faço parte. Cerca de 900 horas semanais são ministradas por substitutos. É uma área que deveria prioridade dentro de uma universidade, mas que sofre, também, com falta de equipamentos para aulas e salas inadequadas", relata.

Contudo, essa demanda dos docentes está perto do fim. Durante o discurso de posse, Ricardo Vieiralves solicitou ao governador a elaboração e discussão do projeto - que foi aprovado no Conselho Universitário - para que ele seja levado à votação na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). O governador, presente na cerimônia, disse que pretende colocar a medida em prática.

"Após o plano de Cargos e Salários dos Professores, que era um sonho antigo que realizamos no mandato anterior, o próximo passo é a demanda da dedicação exclusiva. Podemos verificar o que cresceu em termos de cooperação internacional. É sinal de a credibilidade da Uerj está cada vez mais consolidada. Ter um professor com 40 horas, tendo um salário à altura de uma dedicação exclusiva, é importante", destacou o governador.

O secretário estadual de Ciência e Tecnologia, Alexandre Cardoso, será um dos pilares por elaborar um plano para a implantação da dedicação exclusiva, que, para ele, será um avanço para tornar a Uerj referência no Brasil em diversas áreas, como Direito, Saúde, pesquisa.

"A prioridade é criar a comissão, estudar os impactos com cuidado, pois tem áreas que são muito sensíveis. Acho que a Uerj ganha muito quando cria um plano de dedicação exclusiva. Quando se institui essa proposta, acaba fixando o profissional na pesquisa. A universidade não é conhecida apenas pelo que ensina, mas pelo que pesquisa também. A Uerj tem que avançar muito nessa questão e, principalmente, em associar a pesquisa à vida como ela é. É muito importante que a Uerj seja, nos próximos anos, um grande centro de pesquisa no Brasil. A dedicação exclusiva é fundamental para que isso ocorra."

O reitor anunciou que o segundo mandato marcará a nova faceta do perfil de servidor da Uerj. Aliada à dedicação exclusiva, os vencimentos do corpo técnico também serão atualizados. "Precisamos modernizar a carreira técnica, fazer ajustes. Uma universidade é um lugar de ponta, precisa ser muito dinâmica. O governador entendeu as duas questões. É mais do que o apoio salarial."

Sérgio Cabral comprometeu-se com a causa dos técnicos da Uerj. "A universidade é feita de infraestrutura, mas, sobretudo, de pessoas. A demanda por uma atualização do Plano de Cargos e Salários dos profissionais técnico-administrativos é justíssima, está na hora de atualizar", conclui.

Qual é o principal problema da Uerj atualmente? O que deveria ser prioridade na nova gestão do reitor?

"A prioridade máxima para os técnicos-administrativos é a realização de alterações no plano de carreira, que já foram aprovadas no Conselho Universitário no ano passado. O reitor Ricardo Vieiralves tinha como promessa de campanha implantar imediatamente essas mudanças. A universidade precisa atualizar todo o seu ordenamento jurídico, que é muito antigo, e ter um investimento muito grande na infraestrutura e nas melhorias das condições de trabalho."
Alberto Dias Mendes - Técnico Administrativo

"Tem que ser uma Uerj que não seja apenas ligada a uma questão de aprendizagem, mas que seja básica e nitidamente de formação. No que diz respeito à educação, o novo reitor poderia fazer um diagnóstico da realidade do Rio de Janeiro. Estamos com falta de quase 300 mil professores. Gostaria que ele fizesse um balanço desse quadro e passasse a traçar metas que atendessem, de fato e de direito, as necessidades dos docentes do nosso estado."
Mirian Paura - Professora da Faculdade de Educação

"É necessária a continuidade e a realização de mais concursos públicos. O novo reitor deve trabalhar a assistência estudantil de uma maneira horizontal, na qual realmente o fomento para o acesso do aluno seja mais distribuído. O bandejão está em período de experiência. Muitos estudantes não reclamam do preço, pois ainda está mais barato do que os restaurantes que haviam aqui, mas isso também não é justificativa para não abaixar o preço."
Daniel Lopes - Estudante de História de Arte

"Demoramos muito para ter o nosso restaurante universitário e o reitor Ricardo Vieiralves ampliou isso. A Uerj tem um sistema de cotas e, em função disso, é necessário aumentar os investimentos em assistência estudantil. Desde que ele assumiu no primeiro mandato, realmente a situação da universidade melhorou. Mas ainda são necessárias melhorias na parte acadêmica. É difícil de o aluno se manter na universidade, com material, xérox e outros gastos."
Alan Scarpari - Estudante de Economia

"Deveria existir um projeto mais extenso, voltado para a parte de assistência estudantil. Dessa forma, seria possível garantir a permanência dos alunos na universidade, além de melhorar a qualidade do ensino. Estamos caminhando bem, com avanços, como a inauguração do bandejão. Falta muita coisa ainda, como diminuir os contratados, trazer mais professor para a universidade, que tenha sentimento pela instituição. A dedicação exclusiva também seria muito importante."
"Felipe Sá - Estudante de Ciências Atuariais"

"É preciso garantir a melhoria das condições de trabalho, não apenas dos professores, mas de todos os profissionais. A oferta de cursos deve atingir todo o estado do Rio, mantendo a qualidade. É importante fazer com que o corpo discente se aprimore nos conhecimentos e que ele queira participar da Uerj como uma universidade tem que ser, com resultados sociais. Para isso, é fundamental a dedicação exclusiva dos professores e a realização de novos concursos públicos."
Lincoln Tavares - diretor eleito do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (CAp-Uerj)

Por: Marcella Dos - [email protected]
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