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O comportamento como fator decisivo na vida profissional


O conhecimento técnico e teórico vem sendo cada vez mais valorizado em um profissional. Em um mundo competitivo, o investimento na capacitação é fundamental para o sucesso no mercado de trabalho. Contudo, a grande diferença se dá quando se consegue aliar a competência comportamental à personalidade. O desenvolvimento dessas qualidades resulta em inúmeros ganhos organizacionais.

As competências têm um peso considerável no momento da contratação. O funcionário que consegue lidar com as emoções tem o poder de influenciar diretamente no comportamento de outras pessoas no cotidiano das empresas, principalmente no que tange ao rendimento. A diferença primordial é que a técnica parte do pressuposto de um conhecimento adquirido na formação profissional, moldada à função exercida. A comportamental engloba as habilidades sociais, que exigem atitudes adequadas para lidar com determinadas situações.

"No passado, as competências técnicas eram determinantes na entrada e na saída de um funcionário. Podemos dizer que as competências comportamentais atualmente são um diferencial competitivo. Daí as dinâmicas de grupo como parte do processo seletivo possibilitando a observação do candidato interagindo com o grupo o que pode sugerir como será o convívio com ele", afirma a gerente de Inserção Profissional da Fundação Mudes, a pedagoga Sueli Fernandes.

A especialista destaca alguns pontos que são bastante observados durante uma seleção. Entre eles pode-se destacar a proatividade, a criatividade, a facilidade nos relacionamentos interpessoais e a capacidade de trabalhar em equipe.

"Com a concorrência acirrada e a necessidade de se reinventar a cada dia, as organizações não podem perder tempo com questões ligadas ao comportamento. Não há mais espaço para estrelismos ou conflitos desnecessários. A ideia é que cada um contribua com o seu melhor para o êxito da equipe", afirma Sueli.

Para especialistas, formação escolar ainda é falha no país

As características intrínsecas à formação humana podem ser oriundas de um contexto mais amplo do que simplesmente ligado ao mercado de trabalho. As experiências de vida, somadas ao convívio familiar, favorecem ao desenvolvimento de diferentes competências. A escola é fundamental para abrir o mundo de possibilidades e expandir a gama de conhecimentos.

Para o superintendente do Centro de Integração Empresa-Escola (Ciee), Paulo Pimenta, os jovens não estão preparados para trabalhar essas competências. Mais grave ainda, segundo ele, é que a escola não os auxilia em algumas questões mais básicas, como preencher um formulário e consultar o dicionário.

"Estive recentemente representando o Ciee em uma feira na Rocinha. Alguns jovens do ensino médio não sabem como preencher um formulário. Sabem fazer via internet. Mas se der um questionário para preencher à mão, ele é incapaz de responder. A maioria me perguntava o que era UF, o que era naturalidade e nacionalidade. Eram mais de 200 jovens e, pelo menos, 30% deles não sabiam responder essas questões. Muitos perguntavam qual endereço deveriam colocar. Como consultar um dicionário? O garoto não vai ao dicionário porque não sabe para que serve."

A preparação para o ingresso no mercado de trabalho transcende apenas à qualificação profissional. Sueli Fernandes salienta que a Fundação Mudes recebe jovens totalmente despreparados, principalmente na forma de se comportar perante um recrutador de uma empresa.

"De maneira geral, os estudantes não estão preparados. Procuramos sempre orientar os candidatos a estágio quanto à apresentação para as etapas do processo seletivo na empresa, seja a apresentação pessoal, a maneira de falar, se apresentar, sua expressão verbal e escrita", ressalta.

Paulo Pimenta acrescenta que a comunicação é uma das principais ferramentas durante uma apresentação pessoal. "É preciso evitar utilizar palavras agressivas, termos vulgares. Ao se dirigir para a pessoa, olhar para ela, responder exclusivamente o que é perguntado, não procurar se estender. Quanto mais falar, maior a possibilidade de errar e o entrevistador captar alguma coisa. E a apresentação física, a postura, a forma de se apresentar, com a roupa adequada, é importante."

Entrevistas e dinâmicas são mais decisivas na contratação

O crescimento do setor de serviços tem causado um impacto positivo na geração de emprego no Brasil. A expectativa é a de que o segmento domine cerca de 85% do PIB em 2036, segundo informou o diretor do Indec - Educação Continuada, Julio Cezar Del Rio. Atualmente, a fatia chega a 67%.

"Vivemos em uma sociedade de serviços. Aquela fase da indústria da manufatura já passou. Quando você lida esse setor, o fator humano é o diferencial, pois se trata de muitas coisas intangíveis, que é a própria característica dos serviços. Se o candidato não tiver desenvolvido a sua competência comportamental, com certeza será menos apreciado pelo mercado de trabalho. É uma tendência irreversível", destaca o especialista, que falou justamente sobre Competências Comportamentais em palestra proferida na Feira de Carreiras, promovida pela UniCarioca, nos últimos dias 15 e 16.

A tendência é que as projeções do campo do trabalho acompanhem o crescimento dos serviços. Segundo Del Rio, quem não investir em suas competências comportamentais, terá sérios problemas.

"Isso é verificado nas empresas que fazem contratações periódicas, de trainee, estagiários. Conversando com os gestores, eles dizem que fazem uma primeira linha de corte, estabelecendo como critério o CR, provas de Inglês e raciocínio lógico. A seleção efetivamente se dá através das entrevistas e dinâmicas de grupo. Eles levam em consideração especialmente as competências comportamentais. Hoje em dia, todos que estiverem inseridos no mercado de trabalho, se não se atentarem para isso, passarão por dificuldades", alerta.

Com muitos anos de experiência nas áreas de comportamento organizacional, gestão de pessoas e gestão de recursos humanos, entre outras, Del Rio já viajou alguns continentes em busca de novos conhecimentos e métodos adotados em outros países. No Japão, por exemplo, conheceu o sistema de organização de uma fábrica de automóveis que, mesmo utilizando conceitos conhecidos no Brasil, aplicava técnicas mais inovadoras.

No entanto, o que mais o impressionou foi a metodologia aplicada nas escolas nipônicas. Crianças de quatro a cinco anos são educadas recebendo lições de responsabilidade. "Em cada quinzena, elas tinham um dever. Uma cuidava da merenda, outra da horta coletiva, do material didático. Cada uma tinha uma função. Se você aprende isso com essa idade, quando chega na idade madura, essas competências comportamentais você já aprendeu. Só faltaria a parte técnica", explica. No Brasil, segundo ele, é o inverso.

"O sujeito se forma com mais de 20 anos e aí que vai começar a entender e estudar essas competências. Mas isso é uma questão cultural e vem com o tempo. Mas precisa ter um início. Alguém precisa sinalizar para os jovens. Alguns correm atrás, mas outros não são despertados."

Estudantes sentem falta de orientações sobre as competências

A preocupação das universidades brasileiras em garantir um ensino de qualidade estreita a sua relação com os estudantes. Contudo, nem sempre apenas a teoria é suficiente para que o jovem ingresse no mercado de trabalho. Faltam, na opinião deles, informações mais voltadas para o momento do processo seletivo.

"Muitas vezes, sei o conteúdo, aprendo a teoria, mas acabo não sabendo me expressar. No trabalho, em algumas ocasiões, percebo que me falta alguma competência comportamental, isso me prejudica. Mas consigo trabalhar, melhorar nesse sentido e ter um crescimento profissional na empresa", conta a estudante de Administração da UniCarioca Viviane Reis, que trabalha em companhia de Telemarketing e foi um dos muitos jovens que assistiram aos eventos promovidos pela Feira de Carreiras da UniCarioca.

A reclamação é compartilhada pelo também estudante de Administração da UniCarioca Rander Caillaud. Ele afirma que sentiu falta informações sobre como funciona e o que é valorizado no mercado de trabalho, ao longo de sua formação educacional. "Ouvimos mais sobre esses temas em palestras. Esse tipo de informação faz falta."

Victor Correa, que faz Engenharia de Controles e Automação na Universidade Gama Filho, tem ciência da importância de desenvolver as suas características pessoais. Ele acredita que isso faz diferença não apenas para o lado profissional, mas também do pessoal.

Por: Marcella Dos - [email protected]
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