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O Enem como critério limitado para a escolha de uma escola


Final de ano é época de reflexão. É comum as pessoas fazerem um balanço do ano que passou e traçar objetivos para o seguinte. Não por acaso, muitos pais deixam, para esta época do ano, a decisão de escolher em que escola irão matricular seus filhos no ano letivo seguinte.

Talvez por isso, o Ministério da Educação, anualmente, divulgue um indicador muito esperado pelas famílias em todo o país. O objetivo é permitir que os pais tenham uma noção de como as escolas em que seus filhos estão matriculados saíram-se no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a mais importante e abrangente avaliação aplicada no país para o público da educação básica.

Como não poderia deixar de ser, o bom desempenho na prova nacional, cuja nota é usada para o ingresso em todas as universidades federais e várias estaduais em todo o país, virou sinônimo de qualidade. Não é raro, inclusive, observar escolas que utilizam o fato de estarem entre as melhores do ranking do Enem como diferencial na busca por novos alunos para o próximo ano.

Mas, para especialistas, é preciso ter um certo cuidado na hora de pautar a escolha da próxima escola do filho a partir da média obtida pela instituição de ensino no Enem. Não dá para negar que as que conseguiram as maiores médias podem ser consideradas ótimas opções, cada uma em sua linha pedagógica de atuação. Porém, há fatores que influenciam na média, como a situação socioeconômica dos alunos e a possibilidade que tiveram de se preparar exclusivamente para enfrentar as os 180 itens da prova nacional.

Gerente da área técnica do Movimento Todos pela Educação, Alejandra Meraz Velasco diz que é preciso ter um certo cuidado ao pautar-se na média do Enem para a escolha da escola. Para ela, sem dúvida, o critério pode ser importante se a família tem uma preocupação com o acesso ao ensino superior por parte do estudante. “O Inep vem melhorando a forma de divulgação. Este ano, por exemplo, só divulgaram as médias das escolas em que mais de 50% dos concluintes fizeram o Enem”, destacou a especialista, salientando que, com esta medida, impede-se que instituições que matricularam só seus melhores alunos para fazer o Enem tiverem proveito disto, para fins de propaganda.

Professora do Departamento de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Mirian Paura também acredita que vale a pena levar em conta a média no Enem. Mas, para ela, é um erro usar só este parâmetro para tomar a decisão. “A escola, como dizia Paulo Freire, não é só ensinar a ler, escrever e contar. Acima de tudo, uma boa escola é aquela que está comprometida em educar seus alunos, em formá-los para o mundo em que vivemos”, destacou a educadora. “Nesse sentido, precisamos e devemos escolher uma escola comprometida com uma educação de qualidade que tenha sentido e que promova, em termos de seu projeto político pedagógico, uma proposta que ajude, oriente seus alunos a serem responsáveis por seus atos, mas acima de tudo que lhes dê as condições para atingirem além de boas notas, de ajudá-los na construção de suas subjetividades, na construção da pessoa humana”, complementa Mirian Paura.

Um dos principais problemas da média do Enem, segundo a educadora Sueli de Lima é o fato de que ele, assim como as demais avaliações aplicadas a estudantes no Brasil, só conseguem ser parâmetro para aspectos relativos às aprendizagens mensuráveis, ou seja, em relação a conhecimentos em disciplinas básicas como Matemática, Português e Ciências.

“A escola possui outras funções. E refiro-me à aprendizagem para a atuação no mundo, formação critica para compreensão da realidade. Para mim, a educação tem de contribuir para que o sujeito torne-se ele mesmo, para que compreenda o mundo em que vive, quem ele é e que condições tem de viver nesse mundo e quais precisa criar. Escola tem essa função, que vai muito além de instrumentalizar a pessoa na Matemática e na Língua Portuguesa, por exemplo”, salientou Sueli de Lima.

 

Posição mais distante do topo do ranking
não é sinônimo de falta de qualidade no ensino

Como há uma variedade de propostas pedagógicas, e nem todas priorizam os conhecimentos nos quais se pauta o Enem, é possível que mesmo uma instituição de ensino que não esteja entre aquelas que possuem as mais altas médias preste um serviço educacional de qualidade. Neste caso, outras habilidades e competências trabalhadas compensariam o enfoque que não é dado à preparação para a prova nacional. “Acredito que seria mais difícil, mas não impossível, se ela apenas privilegiar a educação em termos de valores pessoais”, destacou a professora Mirian Paura, ao comentar sobre o fato de uma escola ter condições de apresentar um trabalho de qualidade mesmo sem se destacar no Enem.

“Entretanto, isto não é apenas a realização de uma boa escola que tem que unir, integrar os valores pessoais com os valores do conhecimento e da aprendizagem. O fazer e o saber estão juntos integrados na formação do sujeito. Não considerar o conhecimento, a aprendizagem é desconsiderar o verdadeiro sentido da educação”, salientou a educadora.

A professora Sueli de Lima também acredita que é possível uma escola que está distante das primeiras posições do ranking do Enem desenvolver um bom trabalho educacional. Para ela, os pais devem, inclusive, olhar com cuidado as instituições que encontram-se entre as que possuem as maiores médias. “Estas escolas no topo ranking não estão sabendo se relacionar com os valores necessários da sociedade de hoje, inclusive para esta outra economia que surge, para este outro paradigma que está em voga. São raríssimas as que estão lá na frente e que sabem lidar com estes valores”, destacou a educadora.

Outro cuidado que os pais devem ter é com a pontuação. Segundo Alejandra Velasco, do Todos pela Educação, é comum, entre as que têm as maiores médias no Enem, a diferença ser pequena, o que não é significativo do ponto de vista da comparação. Ela recomenda também ter atenção aos aspectos que vão além do conhecimento das matérias do ensino médio, foco da prova nacional. Até porque, afirma a especialista, muitas vezes, a média alta conseguida por uma instituição pode ser decorrente mais do perfil de seus alunos do que da qualidade de seu projeto pedagógico.

“Quando duas escolas têm a mesma nota no Enem, sendo que uma possui estudantes com perfil socioeconômico mais privilegiado e outra atende estudantes com maior vunerabilidade social, a segunda tem mais mérito. Ela apresenta um trabalho melhor, apesar de, simplesmente pela nota do Enem, serem aparentemente iguais”, salientou Alejandra Velasco.

Por: Larica Santos - [email protected]
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