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O papel decisivo do mediador para a educação inclusiva


Associado mais especificamente a pessoas com alguma deficiência física ou metal, o termo inclusão escolar é o que permite acolher a todos, sem exceção, no ambiente escolar, independente de condições físicas e psicológicas. Visando maior respaldo para que crianças e jovens com necessidades educacionais especiais tenham atendimento especializado, a figura do mediador escolar vem ganhando espaço nas instituições de ensino.

O mediador escolar, como é conhecido o profissional responsável por acompanhar e auxiliar na inclusão das crianças com necessidades educacionais especiais, no caso do autismo infantil, por exemplo, pode ser da área de saúde ou educação. Podem exercer esta função, fonoaudiólogos, psicólogos ou pedagogos, desde que possuam conhecimento sobre o desenvolvimento infantil.

Fonoaudióloga, psicomotricista, especialista em educação especial inclusiva e mediadora escolar, Vanessa Schaffel explica que, dentre outras funções, o mediador facilita a aprendizagem e a aquisição do conteúdo pedagógico, intervindo nas situações sociais, comportamentais, linguísticas, cognitivas e pedagógicas que ocorrem dentro de sala de aula.

"O papel do mediador envolve as áreas do comportamento, as habilidades sociais, comunicação e linguagem. O mediador trabalha tudo entre o lúdico e o pedagógico. Quando indico esse profissional para alguma criança é para que ele fique diretamente com o aluno, mediando esses aspectos dentro do contexto escolar e auxiliando a escola dentro da questão da inclusão", esclarece.

Quando o professor não consegue dar o devido apoio ao aluno que requer uma atenção especializada, o mediador entra em ação dando suporte a essa criança e facilitando sua inclusão através de estratégias que estimulem seu desenvolvimento. A ideia é adaptar o conteúdo pedagógico às necessidades das crianças, sempre de forma prática, lúdica e sensorial.

O ideal é indicar um mediador para auxiliar o professor nesse processo da inclusão. O profissional precisa mediar a criança, fazê-la perceber o comportamento do outro e direcioná-la para executar as tarefas da rotina escolar. O professor, muitas vezes, está com o grupo de alunos e não consegue dar atenção necessária ao aluno especial. O papel do mediador é auxiliar o professor nessa inclusão, mediando as questões sociais", alerta Vanessa.

Mediadores são importantes para viabilizar a educação inclusiva

Além de proporcionar aos alunos especiais atenção individualizada, os mediadores escolares prestam apoio aos professores em sala de aula, com ajuda nas atividades e trabalhos de adaptação. Quando o aluno apresenta alguma dificuldade com o material proposto para o restante do grupo, o mediador pode fazer algumas adaptações curriculares que proporcionem maior facilidade de aprendizagem para as crianças com dificuldades.

A parceria entre mediador e escola, portanto, favorece não apenas as crianças, mas também o estabelecimento de ensino. De acordo com Vanessa Schaffel, todos saem beneficiados com a presença deste profissional. "O mediador é importante tanto para as crianças de inclusão, que precisam ter uma referência de comportamento do que é típico para aquela faixa etária, quanto para as crianças que chamamos de neurotípicas - indivíduos que não apresentam distúrbios significativos -, por estarem em contato com crianças que precisam de atenção especial. Isso as torna mais solidárias e compreensivas com as crianças de inclusão."

Há diversos tipos de alunos que precisam do apoio de um mediador escolar. A maior demanda de indicação de mediação é para casos de desvios mentais, crianças intelectualmente superiores ou lentas quanto à capacidade de aprendizagem. O apoio deste profissional também é importante para alunos com deficiências sensoriais, auditivas e visuais; para estudantes que sofrem de desordens da comunicação e de distúrbios de aprendizagem, fala e linguagem capazes de comprometer o desempenho escolar; além daqueles que possuem deficiências múltiplas, como paralisia cerebral, retardo mental, deficiências físicas e intelectuais graves.

Alunos que precisam de mediação, em geral, sofrem de distúrbios de aprendizagem como transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH); dislexia; deficiência intelectual; síndrome de down; paralisia cerebral; transtornos de comportamento (como o bipolar de humor) e de conduta; e o transtorno do espectro do autismo (TEA), área em que atua a fonoaudióloga e terapeuta Vanessa Schaffel.

"Minha área é autismo e eu trabalho com mediação desde 2003. Já fui mediadora em escolas particulares e desde 2011 passei a coordenar os mediadores e a trabalhar só com terapia. Quando a criança é acompanhada por mim, eu ajudo a família a contratar um mediador. Temos que traçar o perfil da criança e avaliar a especificidade do transtorno para definirmos o profissional mais adequado", explica.

 
Presença do mediador nas escolas ainda é um desafio

Em fevereiro, a Comissão de Seguridade Social e Família aprovou uma proposta que torna obrigatória a presença de cuidador em escolas regulares para acompanhar alunos com deficiência, se for verificado que a criança precisa de atendimento individualizado. Com a medida, a legislação brasileira visa incentivar a inclusão dos alunos que possuem alguma deficiência de aprendizagem ao seu ambiente escolar.

Embora, na teoria, o processo de inclusão seja um caminho lógico para que crianças excepcionais encontrem a independência, na prática o assunto é outro. Cabe pontuar que, pelo menos em escolas particulares, o mediador é pago pelos pais da criança. Estagiários são eventualmente utilizados na rede pública. Segunda Vanessa, a lei respalda a inclusão, mas ainda não respalda o fundamental, que é acompanhamento do mediador.

"O mediador é um profissional contratado pelos pais, responsáveis por encontrar o profissional e até mesmo pagar pelos seus serviços. É muito difícil colocar um profissional contratado pela família dentro de uma instituição de ensino que não tem prática de inclusão. É um desafio constante para nós."

A dificuldade em encontrar alguém que seja o intermediário entre a criança e as situações vivenciadas por ela na infância pode atrasar seu desenvolvimento social e de comportamento. Com isso, mesmo que os anos passem, o diagnóstico permanecerá o mesmo, como explica Vanessa Schaffel.

"A minha prática é educação infantil. A maior demanda na procura por mediadores é educação infantil, mas tenho mediadoras que trabalham em faculdade. As crianças crescem e não deixam de ter um diagnóstico. O desempenho acadêmico e o contato social estão implícitos, estão relacionados. Quando começamos o trabalho cedo a evolução é melhor, mas as vezes é preciso levar esse acompanhamento em qualquer nível de escolaridade. Nem sempre é fácil contratar um mediador."



Atividade desperta interesse de profissionais de educação


Como abril é mês de mundial de conscientização do autismo, a Universidade Estácio de Sá, unidade Nova América, receberá a especialista Vanessa Schaffel para um encontro para esclarecer dúvidas sobre as práticas de inclusão. A palestra será dia 5 do próximo mês, às 9h. O investimento é de R$70. O único pré-requisito é estar vestindo uma blusa azul, cor do autismo.

No dia 22 de fevereiro, porém, a universidade recebeu a profissional para uma palestra sobre mediação escolar. Um dos objetivos dos encontros, que têm recebido professores e estudantes universitários, é o de possibilitar a capacitação de profissionais para atuar com crianças com deficiência.

"Eu gosto muito desse tema, sobre educação inclusiva e educação especial. Comecei a vir aos encontros, assistir às palestras, pois tem me agregado muito como profissional. Trabalho em uma escola de educação inclusiva, mas trabalho na cozinha, sou merendeira. Estar aqui é importante para que, futuramente, eu possa trabalhar nessa área e ajudar ainda mais as crianças da minha escola", diz a Rosane Narciso Fontes, merendeira na Escola Especial Municipal Maurício de Medeiros.

Rosane tem 48 anos e já fez Pedagogia, especialização em psicomotricidade e agora pretende seguir para a Neurociência. O fato de trabalhar em uma escola da rede municipal é o que a impulsiona a seguir se especializando. "Nas escolas do município, já existem alguns estagiários que fazem esse tipo de trabalho. Vejo que há crianças que precisam de acompanhamento, não digo nem ajuda, mas sim de um suporte. Muitas vezes essas crianças não conseguem entender e compreender como as outras. É necessário que haja um currículo adaptado, um exercício adaptado e uma atividade para incluir essa criança junto ao grupo."

Atenta às instruções de Vanessa Schaffel, estava a jovem Isis Marrom da Silva, estudante do curso de Educação Física da Estácio de Madureira. Certa de que, no futuro, trabalhará com crianças, Isis quer, desde já, agregar o conhecimento que fará a diferença ao seu currículo. "Faço educação física, mas quero trabalhar em escola, com crianças. Serei uma educadora, antes de tudo, por isso é sempre bom saber como tratar alguém que não tem o mesmo desenvolvimento de uma criança neurotípica", ressalta.

Para Isis, seu trabalho como mediadora escolar já é algo certo. A menina sabe exatamente como deverá atuar junto ao seu aluno. "Serei uma mediadora no aprendizado. Ficarei entre o professor e o aluno e entre a família e o aluno, construindo um novo caminho de experiências para essa criança."

Pensando em ajudar não apenas os alunos, a futura pedagoga Andreza Arruda sabe da importância que o mediador tem junto ao professor da turma. "Toda a escola deveria ter, por lei, um mediador, caso fosse necessário. É importante ter uma ajuda específica, uma pessoa ali do lado para cuidar e mediar os ensinamentos daqueles que precisam. Não tem como um professor administrar toda a turma, imagina com um aluno que exige atenção especial. Ter um mediador escolar faz toda a diferença na vida de uma criança especial e na rotina escolar."

Por: Larica Santos - [email protected]
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