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Os encantos do universo mágico da leitura


Depois das manifestações nas ruas, a corrida para o universo das letras. Apesar da forte presença de aparelhos eletrônicos, como o tablet e o Iphone em seu cotidiano, os jovens foram os protagonistas da XVI Bienal Internacional do Livro Rio de Janeiro, figurando como os principais responsáveis pela marca de 3,5 milhões de livros vendidos, com uma média de consumo de 6,4 livros por pessoa.

E um dos segredos desse sucesso, segundo os organizadores, foi a ampliação da programação cultural do evento, que neste ano homenageou a Alemanha. Investimentos na ordem de R$5 milhões (20% a mais do que na edição de 2011) tornaram possível uma agenda de debates culturais sobre os mais diversos aspectos do universo do livro e levaram ao Riocentro 163 autores brasileiros e 25 estrangeiros (incluindo nove alemães), além de 42 mediadores.

A estratégia foi criar uma gama de diversificada de instalações, com atrações que levaram um universo de 30 mil pessoas a espaços como Café Literário, Mulher e Ponto, Placar Literário, #acampamento na bienal e Planeta Ziraldo, além das prestigiadas sessões do Conexão Jovem e do Encontro com Autores.

Presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), Sônia Jardim avaliou que os visitantes da Bienal refletiram a riqueza e a diversidade da programação. “Passaram por nossos corredores autores de diferentes perfis, atraindo uma plateia variada, mas é impossível não destacar a grande presença dos jovens. Eles sempre deram brilho à Bienal, mas nos últimos anos vêm se tornando o maior público leitor do país. E quem esteve no Riocentro pôde constatar isso: os jovens eram maioria tanto na plateia dos debates culturais como nas sempre animadas filas para autógrafos e compras de livros”, afirmou.

A tática de buscar nas atividades culturais a motivação para o contato com o livro e com o universo das letras também foi adotada pelos educadores. Com visitas expressivas de alunos da rede pública, o maior evento literário do país registrou a participação de 145 mil estudantes e 97 mil professores.

Grande homenageado da Bienal do Rio, o pintor, cartazista, jornalista, teatrólogo, chargista, caricaturista e escritor Ziraldo, cuja obra já foi traduzida para vários idiomas — como inglês, espanhol, alemão, italiano e até esperanto — e está presente no cinema, no teatro, em gibis, revistas, jornais, e-books e em páginas eletrônicas, foi o principal chamariz para o público infantil.

No espaço Planeta Ziraldo, muitas crianças entraram em contato com o universo literário a partir da encenação de “Flicts” — primeiro livro infantil do escritor, publicado em 1969. Ao brincar com o espectro das cores e a textura da lua, o elenco que coloriu o clássico infantil com canções e performances diferenciadas, encantava um publico formado massivamente de crianças.

Semeando os futuros amantes da leitura
- Para boa parte dos especialistas, é nos primeiros anos da educação básica que são plantadas as sementes para despertar o interesse e a prática da leitura. Pelo menos essa é a receita de trabalho no Esil Educacional, onde trabalha a professora Camila Carvalho, que leciona para o 2º do ensino fundamental.

A educadora trouxe, no dia 6 de setembro, seus alunos da Penha ao Riocentro para apresentar-lhes novas possibilidades de contato com o livro. Segundo Camila Carvalho, a leitura é incentivada a todo o momento: nas aulas e em atividades extraclasse, como a visita à Bienal do Rio. Mas ela reconhece que em meio a um universo repleto de eletroeletrônicos, fazer com que os jovens procurem os livros é um desafio.

“Costumamos fazer cirandas de leitura. Fazemos rodízios com os livros. E eles escolhem os títulos a partir de seu interesse e fazem como se fosse um ‘fichamento’, um breve resumo. O objetivo é  despertar o gosto pela leitura, mostrando a ludicidade dos livros. Após a bienal, vamos elaborar textos coletivos com os alunos”, acrescentou a docente.

Mas o cultivo do universo cultural das crianças não é feito apenas pelas escolas. Os pais podem colaborar, e muito, para ampliar o número de leitores entre o público infanto-juvenil. Conhecer a Bienal do Livro e comprar um livro interessante, com design diferenciado, foi a solução encontrada pela dona de casa Fernanda Antunes para retirar seu filho Enzo Antunes, de 9 anos, da frente das telas do computador e colocá-lo diante dos mais diversos títulos e genêros literários.

“Essa é a primeira vez que trago meu filho para a Bienal do Livro. Eu acho importante incentivar a leitura. Essa nova geração é muito apegada ao computador. E também lê alguns livros. Ele gosta muito de dinossauros, insetos, monstros. E gosta bastante de gibis. No colégio, eles têm uma aula na semana reservada para leitura. A escola pede quatro livros de leitura por ano, além dos didáticos. Eles fazem resumo desses livros”, esclareceu a mãe de Enzo, que está no 4º ano do ensino fundamental.

O despertar de novos leitores - E não são apenas os números que confirmam a assertividade dos métodos adotados pelos profissionais do livro. Aluna do 3º ano do ensino médio do Ciep 321 Dr. Ulysses Guimarães, que fica em Curicica, a jovem Rafaela Mota, de 17 anos, contou que seu interesse pela Literatura surgiu na última Bienal do Rio, em 2011, quando visitou uma instalação que reproduzia o labirinto presente na trilogia “The Maze Runner - Correr ou Morrer”, obra que mistura suspense e ficção científica.  “Entrei em um labirinto para conhecer um pouco mais a obra. Levei o primeiro livro da trilogia e, a partir daí, tomei gosto pela leitura”, revelou a estudante.

Hoje, Rafaela, que sonha cursar Biologia em uma universidade no exterior, por meio do programa Ciências sem Fronteiras, do governo federal, é incentivada pelos seus professores a conhecer autores brasileiros. “Temos muita coisa boa para aprender com os autores de nosso país”, observou a fã de ficção científica.

Colega de Rafaela no 3º ano do ensino médio, João Pedro Carvalho de Oliveira, 18 anos, foi outro beneficiado. Pela primeira vez em uma bienal do livro, o estudante integrou o grupo de 40 alunos do Ciep 321 Ulysses Guimarães que foi ao evento em 6 de setembro. “Estou adorando. Entramos em contato com uma variedade de escritores brasileiros e estrangeiros. É um encanto”, declarou o jovem.

Apresentado ao universo literário dentro do Projeto de Leitura e Produção Textual desenvolvido em sua escola, o jovem revela seu interesse por História, refletido na leitura de biografias. 

“No colégio, temos uma biblioteca muito bem equipada. Os últimos livros que li foram ‘50 Anos a Mil’, a biografia de Lobão; e ‘Steve Jobs: A Biografia’. Eu prefiro obras baseadas em histórias reais”, contou o estudante que pretende cursar Engenharia Elétrica.

O livro como fator de inclusão social - As responsáveis por levar o grupo de alunos do Ciep 321 Dr. Ulysses Guimarães à Bienal do Rio foram Andrea Ramiro, Cristina Oliveira e Elisângela de Lima Souza, que ressaltou a importância da leitura na formação dos estudantes. “Trouxemos esses alunos para ter contato com escritores e para eles conhecerem esse universo da Bienal. Trabalhamos com produção textual, visando as provas e a redação do Enem. Sempre trago meus alunos à Bienal do Livro”, informou Elisângela, que leciona Espanhol e é responsável pelo Projeto Leitura e Produção Textual, do colégio.

Coordenadora do Projeto Cidadania dentro da Escola, também realizado no colégio,  a professora de Biologia Andrea Ramiro destaca a conexão entre a leitura e formação dos cidadãos. “Nesta visita, eles também exercem a sua cidadania. O acesso ao livro e a um evento como a Bienal do Livro, para os nossos alunos, representa uma forma de inclusão social”, completou Andrea.

Professora de educação artística que atua como agente de leitura da biblioteca do Ciep 321 Dr. Ulysses Guimarães, Cristina Oliveira assinala que, atualmente, o grande desafio dos educadores é fazer com os jovens leiam livros nacionais.  “Hoje, temos uma febre de literatura de sagas. Eles gostam muito dos romances estrangeiros. E nosso objetivo é ampliar seus horizontes, apresentando contos, poesias, cronicas e romances, inserindo os nossos autores”, argumentou a docente de educação artística.

Neste contexto, a agente de leitura frisa que a Bienal do Livro é uma excelente oportunidade para os estudantes perceberem a importância da leitura e o quanto essa prática pode abrir seus caminhos profissionais e suas relações interpessoais. “Trouxemos alunos do 3º ano do ensino médio pois eles precisam fazer as suas escolhas de vida. E o nosso projeto busca despertar o hábito e o gosto pela leitura”, completou a educadora.

Por: Tainara Silva - [email protected]
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