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Qualificação em uma área que está em alta no mercado


A Nuclebrás Equipamentos Pesados S/A (Nuclep), empresa no Rio de Janeiro vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), irá selecionar candidatos de 18 a 20 anos para o curso de Aprendizagem Industrial. A intenção é transformar os jovens aprendizes em profissionais qualificados e mais desejados do mercado. O ponto de partida é o Centro de Treinamento Técnico (CTT), chamado carinhosamente pelos veteranos de “escolinha”, responsável pela formação da mão de obra que, no futuro, terá a incumbência, entre outras, de fabricar equipamentos e peças do primeiro submarino nuclear brasileiro.

A Nuclep foi criada em 16 de dezembro de 1975, através do Decreto nº 76.805, para ser o braço direito do Programa Nuclear Brasileiro, que fez surgir as três usinas nucleoenergéticas de Angra dos Reis. A primeira (Angra 1) teve origem tecnológica herdada dos americanos, enquanto Angra 2, em 2000, foi construída com tecnologia alemã Siemens/KWU, ainda no âmbito do Acordo Nuclear Brasil-Alemanha. Com esse acordo foi sugerido que a qualificação da mão de obra brasileira deveria ser equiparada a do centro de treinamento da Alemanha/ Áustria.

Segundo o professor Rodolfo Barbosa Guedes, gerente de Treinamento Técnico da Nuclep, a ideia de formar trabalhadores qualificados em uma região tipicamente rural foi profética. Segundo ele, além da dificuldade de encontrar mão de obra qualificada na região, boa parte apresentava baixa escolaridade. “A implantação de uma escola de fábrica com formação profissional somada ao ensino fundamental de qualidade foi uma atitude inédita no Brasil, dotando o país de reserva técnica de qualidade, e cumprindo compromissos referentes às estratégias de demanda específica para as indústrias nuclear e pesada brasileiras.”

Rodolfo acredita que, se a empresa não tivesse investido na escola de formação profissional, hoje teria dificuldades para contratar mão de obra especializada, como soldadores, caldeireiros, torneiros, fresadores, mecânicos de manutenção eletromecânica e desenhistas técnicos. A escola de fábrica garante hoje 51,44% de mão de obra direta da empresa, e muitos alunos formados ao longo dos anos, atualmente são gerentes, coordenadores, supervisores e instrutores. “O ex-presidente Lula, quando nos visitou, ficou tão encantado com o modelo da escola que quis usá-la como paradigma em todo país, iniciando o projeto Escola de fábrica que, mais tarde, por decreto, ganhou o nome de Pró-Jovem Trabalhador”, lembra, com orgulho, o professor Rodolfo Barbosa.

Curso de qualificação
dura total de 3.200 horas
O CTT da Nuclep oferece 3.200 horas de qualificação profissional - considerado o mais longo curso do setor - no seu complexo industrial no município de Itaguaí, a 85 quilômetros do Centro do Rio de Janeiro, às margens da Rodovia Rio-Santos (BR-101). Segundo o professor Rodolfo Barbosa, tal formação não é encontrada em lugar algum do país, pois além do ensino de excelência, tem como atrativo a possibilidade de efetivação na fábrica.

“Nós temos 49 alunos da turma de 2011 que cumpriram 1.600 horas e vão para a fábrica ano que vem para passarem mais 1.600 horas de aprendizagem industrial. A área de planejamento já conta com essa mão de obra e isso motiva os alunos a se empenharem e evitar a reprovação, lembrando que a média para cumprir a primeira etapa do concurso é 7,0”.

Tão logo os alunos iniciam o ano letivo, eles passam pelo curso de ajustagem industrial, com duração de 800 horas, visando aumentar os conhecimentos técnicos, habilidades e coordenação, aprendendo a furar, dobrar, traçar e operar máquinas. Ao seu término, é feita uma sondagem de aptidão, uma espécie de teste vocacional, quando são avaliados em todas as áreas, a fim de se verificar a tendência de cada um para área de Soldagem, Caldeiraria, Processo de Usinagem, Desenho técnico e outras.

Segundo o gerente do CTT, a partir daí, eles são direcionados para profissões em que serão qualificados: “Nossos alunos serão exímios caldeireiros em todas as suas ramificações, como maçariqueiro, operador de tratamento térmico e traçador. Do universo de soldador, eles fazem qualificação para eletrodo, arame tubular, sem falar no processo de usinagem, onde aprendem tornearia e fresagem. Para completar, temos ainda a manutenção eletromecânica, onde eles aprendem a trabalhar tanto a parte mecânica, quanto a elétrica e de refrigeração; e a de desenhista técnico mecânico, também uma ótima profissão.”

O próximo passo dos estudantes é ser selecionados para o curso de formação, onde completam 800 horas, praticamente com uma vaga garantida na fábrica, tão aguardada pelos jovens aprendizes. O ponto máximo é o curso de aprendizagem industrial ou estágio, quando os alunos permanecem por mais 1.600 horas, atuando somente na formação que tiveram no centro de treinamento, quando já recebem um salário mínimo e o adicional de insalubridade, que depende do setor em que vão atuar. Só depois de todas essas etapas, a Nuclep decide pela contratação de todos ou parte, já que é formado cadastro reserva da empresa.

De acordo com o professor, é comum as grandes indústrias e multinacionais buscarem a mão de obra formada pela “escolinha”, como o Grupo Gerdau, Michilin e Thirsen, por exemplo. Sendo contratados, os profissionais iniciantes recebem salário de cerca de R$1.600, além de alimentação, transporte e auxílio médico, no próprio parque industrial de Itaguaí. Para completar, os funcionários assistem a palestras e são orientados sobre educação financeira, prevenção contra drogas e doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs).

“Temos profissionais com salários acima do mercado, de acordo com o tempo de serviço e de sua qualificação. Estamos qualificando soldadores para o projeto submarino, alguns desses vão para a França, para se aprimorarem e, consequentemente, receberão melhor salário”, explica o professor.

Profissionais atuam em
projetos estratégicos
Subordinada à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), a Nuclep projeta, desenvolve, fabrica e comercializa componentes pesados, principalmente para usinas nucleares, construção naval e plataformas petrolíferas, desde dispositivos a equipamentos como reatores, pressurizadores e plataformas. Há dois anos a empresa iniciou o processo de fabricação dos acumuladores e condensadores da usina nuclear Angra 3, além de atuar no desenvolvimento da tecnologia francesa para a fabricação de cascos resistentes dos quatro submarinos, tipo IKL-1400, da Marinha Brasileira.

Segundo André Potacheff, gerente geral de produção da Nuclep, todos os projetos de ponta têm as mãos de ex-aprendizes. “O submarino, por exemplo, tem importância de Defesa Nacional, com seus segredos estratégicos, que exige mão de obra genuinamente da Nuclep. Muitos desses profissionais são formados na ‘escolinha’, principalmente os soldadores. Começamos a fabricar as duas primeiras peças para enviar à Marinha e vamos fazer o primeiro navio nuclear. Metade dos ex- alunos está envolvida nessa empreitada”, revela o professor, salientando que a instituição busca dar acompanhamento aos alunos.

“Os aprendizes vão para a linha de produção, acompanhados pelos supervisores, para adquirirem a experiência necessária e, depois, passam a fazer parte da equipe. Conhecendo o processo produtivo da Nuclep, após cumprirem a etapa industrial, eles ficam aptos para o trabalho e comemoram a formação profissional”.

 

Depoimentos

“Fiz uma excelente escolha. Pretendo aprender cada vez mais”
“Aqui realmente me encaixei, já que sempre gostei de mexer com equipamentos e montar e desmontar objetos. Fiz a ajustagem básica, tive um bom desempenho, me identifiquei com a solda e resolvi seguir a profissão. Almejo ainda atuar na área de produção dentro da fábrica para crescer cada vez mais. Sempre via meus tios trabalhando com solda e achava interessante. Um tio é serralheiro; o outro, soldador da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA). A Nuclep, além de ter um centro em que se aprende muito de Mecânica, tem como diferencial o grau elevado de ensinamento, com muitas horas de prática, o que faz o aprendizado ser de qualidade, diferente das outras escolas técnicas. Acho que fiz uma excelente escolha. Eu pretendo aprender cada vez mais para me especializar na área de inspeção. Quero cursar faculdade de Engenharia Mecânica, Metalurgia e ainda Engenharia de Solda no exterior. O mercado de trabalho é exigente e temos de acompanhá-lo para chegar na excelência que ele pede. Acordo diariamente às 4h para pegar o ônibus da empresa às 5h27, sempre com a mesma disposição, porque sei que isso aqui é meu futuro.”
Rafael Trindade, aluno da escola da Nuclep


“Quando descobri a Mecânica, me encantei pela área”
“Minha família é toda de Itaguaí, mas já morei em Seropédica, Paracambi e Nova Iguaçu. Eu morava no Recreio com meus pais, para onde retorno nos fins de semana, pois prefiro ficar por aqui para estudar. Meu pai é engenheiro e meu irmão faz Medicina, carreira que sempre tive a ideia de seguir. Mas, quando descobri a Mecânica, me encantei pela área, bem diferente, mas com muita novidade e um leque de opções de trabalho. As aulas no CTT são muito práticas, em comparação as demais escolas técnicas, e dá para entender todo o desenvolvimento da solda, pois são seis meses de aprendizado em tempo integral, das 7h às 17h, intercalado com as aulas teóricas. Lá fora é um mês para aprender solda, aqui são seis. O ensino é excelente, com bons professores. Vou terminar o curso da Nuclep e, mesmo não passando para a faculdade pública, tentarei Engenharia Mecânica para uma instituição particular. Acordo às 6h30 e chego em casa às 18h para ir para a escola, mas não reclamo, pois aqui me preparo para o mercado, e posso ser contratado por qualquer empresa. Além disso, no estágio estarei ganhando R$850, o que vale muito a pena.”
Erick Yuskekajishima, aluno da escola da Nuclep

Por: Larica Santos - [email protected]
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