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Quando as empresas assumem o papel do poder público


No Brasil, há muito se sabe que a educação não vai bem. O desempenho ruim dos estudantes em avaliações nacionais e internacionais, os problemas de infraestrutura nas escolas e as condições de trabalho precárias dos professores são sinais de que o investimento no setor historicamente tem deixado a desejar.

Os mais penalizados, sem dúvida, são os milhões de estudantes que, sem um ensino que os qualifique para o exercício da cidadania e para atender as demandas do mundo moderno, enfrentam grandes dificuldades, por exemplo, na hora de conquistar um bom emprego. Na outra ponta estão as empresas, que, sem mão de obra qualificada, têm suas possibilidades de desenvolvimento limitadas.

Este quadro tem levado a uma inversão de papeis. Instituições do mercado, em diferentes ramos, que muitas vezes esperam que os formados no sistema de ensino cheguem com competências básicas, precisam investir na criação de cursos para efetivamente qualificar seus profissionais, em habilidades decisivas no mundo corporativo de hoje. O que tem levado à criação de várias universidades corporativas em todo o país.

As discussões em torno desta problemática, entre outros assuntos, permearam a mais recente edição do Congresso Nacional de Inovação, Trabalho e Educação Corporativa (Conitec), realizado no fim de julho. Em sua terceira edição, trouxe para debate diversos temas sobre inovação, qualidade e capacitação na educação corporativa.

Presidente da Associação Nacional de Inovação, Trabalho e Educação Corporativa (Anitec), Eleonora Jorge Ricardo diz que a ideia do evento é ampliar a discussão e estimular empresas a investirem em universidades corporativas de qualidade para a capacitação de profissionais, mas afirma também que é importante o governo ser participativo.

"Temos aí a questão do apagão de mão de obra. O governo sempre diz que faz parte do papel da empresa fazer o investimento em educação do trabalhador. Mas não é apenas isso. No final das contas, quando o empregado chega na empresa, é necessário investir mais profundamente nessa formação, porque ele não foi bem formado no ensino fundamental".

De acordo com Eleonora, muitos são os profissionais que chegam nas empresas sem saber ler ou escrever, o que acaba fazendo com que as próprias instituições invistam nesta educação do trabalhador. Também há investimentos em cursos de idioma estrangeiro e, muitas vezes, de formação técnica, pois, segundo a professora, mesmo quando há qualificação no ensino médio ou na graduação, o que o trabalhador viu em sala não condiz com o que ele verá na prática.

Dessa forma, as empresas gastam não apenas com a qualificação para as suas estratégias, mas, também, com a formação básica do trabalhador, ou seja, complementando o trabalho educacional que não foi realizado durante o seu período escolar.

Anitec lança selo de qualidade para educação corporativa

Diante dessa situação é que a presidente da Anitec diz que o estágio acaba tendo um valor importante para a empresa pois é um momento de aprendizagem, assim como também a figura do trainee, passando a ser uma forma de a empresa tentar preparar o profissional recém-formado para se adequar a sua cultura organizacional.

"A ideia que a Anitec vem trazendo é a de que o governo tem que ser participante sim. Aqui nós temos uma cultura diferente e o trabalhador faz a contribuição sindical dele, mas não basta fazer essa contribuição e a empresa investir. É necessário que o trabalhador tenha uma formação básica de qualidade", disse Eleonora Ricardo.

Durante o congresso a Anitec lançou o seu selo de qualidade em inovação e educação corporativa, cuja finalidade é estimular as empresas a adotarem um modelo de educação. "A Anitec está atestando que são universidades corporativas que possuem processos validados de investimento em inovação e educação corporativa. É garantir que a educação que está sendo realizada na empresa é de qualidade. O profissional sai de uma universidade com um currículo que ele passou por quatro anos de formação, quando ele chega na empresa já mudou a demanda do mercado de trabalho e ele fica defasado".

A proposta da Anitec é fazer com que as ações educacionais que não estejam sendo atendidas no espaço formal de educação, dentro das escolas e universidades, sejam reconhecidas pelo governo quando efetuadas pelas universidades corporativas por meio de uma certificação.

A Universidade Corporativa do Sistema Eletrobrás (Unise) recebeu, durante o Conitec, o selo de qualidade. Segundo a presidente da Anitec, a Unise é um sistema consolidado de educação corporativa e que já possui notório conhecimento na área de formação e capacitação.

Criada em 2005 para atender a todo o Sistema Eletrobrás, a Unise surgiu com o propósito de alinhar a formação profissional dos trabalhadores das empresas Eletrobrás com os objetivos estratégicos da empresa.

Segundo Fátima Freitas, gerente da Unise, o projeto da universidade buscou as melhores práticas e os melhores conceitos relacionados às universidades corporativas e, a partir dessa concepção, com participação ativa de todas as empresas, iniciou efetivamente com a atuação dessa universidade cuja missão é desenvolver as competências dos profissionais que melhor contribuam para a melhoria dos seus resultados de forma sustentável.

"Nossos profissionais chegam nas nossas empresas cada um com a sua formação, por meio das diversas instituições por onde eles passaram. Porém chegando na organização, cada um se insere na sua missão a cumprir na organização e naturalmente eles precisam de um desenvolvimento que esteja alinhado às estratégias empresariais".
 


Na Espanha, fundo financia ensino promovido por empresas

Enquanto, no Brasil, a formação profissional fica dividida entre os cursos técnicos e de graduação oferecidos pelos governos federal e estadual — muitas vezes criticados pelo setor empresarial devido à defasagem em relação à prática dentro do mercado —, os cursos ministrados por entidades sem fins lucrativos como as que compõem o Sistema S e aqueles que são investidos pelas próprias empresas, na Espanha, um subsistema de educação profissionalizante é operado a partir de uma parceria entre governo, organizações empresariais e organizações sindicais.

O III Congresso Nacional de Inovação, Trabalho e Educação Corporativa (Conitec 2013) convidou o diretor de relações internacionais da Fundación Tripartita, Ricardo Guisado Urbano, para mostrar como é o modelo espanhol de subsídio à formação profissional.

Como uma Organização Não Governamental (ONG), a Fundación Tripartita é responsável pela gestão dos recursos do fundo do governo espanhol para a formação profissional. Esse fundo é formado pelas contribuições feitas pelos envolvidos. De acordo com Ricardo Guisado, o Estado espanhol contribui com uma cota de 8% para o fundo, as empresas com 0,6% e os trabalhadores, via sindicatos, com 0,1%. Há ainda outras contribuições como o Fundo Social Europeu da União Europeia, chegando a 5% da contribuição, entre outros. Toda essa arrecadação vai para o Fundo de Seguridade Social da Espanha.

Esse convênio formado entre governo, empresas e sindicatos permite que a verba destinada à educação dos trabalhadores seja repassada para as empresas investirem em cursos. Todo esse recurso é fiscalizado pela Fundación Tripartita, mas a realização da formação é feita pelas empresas. Por se tratar de um sistema solidário, as instituições de menor porte recebem um percentual de recurso maior que as de grande porte.

O fundo é destinado não apenas para a formação de trabalhadores empregados. Do total, 53% é investido em profissionais desempregados. A proposta é que esses trabalhadores possam ser realocados no mercado de trabalho. Pretende-se ainda acrescentar ao benefício os trabalhadores autônomos. Além disso, toda essa formação realizada pelas empresas é reconhecida pelo governo espanhol.

O plano de formação profissional funciona com a destinação do dinheiro do fundo para as empresas investirem nos cursos de capacitação, que é administrado pela Fundación Tripartita. Se o trabalhador se ausenta do trabalho para fazer o curso, a ONG reembolsa a empresa com o valor referente ao tempo em que ele ficou fora. Ao final do curso o empregado tem que apresentar o certificado oficial para que a empresa comprove que utilizou o recurso devidamente. As empresas prestam contas com a
Fundación Tripartita, que recebe de volta todo o dinheiro não utilizado e devolve ao fundo para futuros investimentos.

Com isso, o governo espanhol implementa a formação profissional em três níveis: o primeiro, a partir da própria educação básica, preparando o cidadão para o mercado de trabalho; o segundo, com cursos técnicos e com as universidades para introduzir e capacitar o profissional; e o terceiro, com a educação corporativa, para aperfeiçoar o profissional que já está no mercado de trabalho, empregado ou desempregado.

Segundo o diretor da fundação, os resultados têm sido gratificantes. Mesmo com a queda da arrecadação por conta da crise no país, os trabalhadores espanhóis têm recebido cada vez mais uma capacitação profissional de qualidade.

Por: Marwin Castro - [email protected]
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