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Sinal de alerta no Pedro II


Uma das mais antigas e tradicionais instituições de ensino do país, o Colégio Pedro II é parte fundamental da história da educação brasileira. Fundado em 1837, foi o primeiro colégio de instrução secundária oficial do Brasil, caracterizando-se como importante elemento de construção do projeto civilizatório na época do Império, de fortalecimento do Estado e formação da nação.

A instituição fluminense formou personalidades que se destacaram na política, como os presidentes da República Rodrigues Alves (1902-1906), Nilo Peçanha (1909-1910), Hermes da Fonseca (1910-1914) e Washington Luiz (1926-1930), além de importantes nomes como Noel Rosa, Lamartine Babo, Manuel Bandeira e Oswaldo Cruz, entre outros.

Porém, perto de completar 175 anos, a instituição passa por um momento que divide opiniões internamente. Sofrendo com seguidas greves de servidores e estudantes — a atual já dura cerca de dois meses — o colégio, segundo representantes de profissionais e alunos, passa por problemas que têm como principal causa uma expansão que teria sido feita sem o devido planejamento, para que fosse acompanhada da qualidade e condições adequadas para a prática docente.

"Apareceram unidades nos mais variados lugares, dentro da política educacional de acesso do país. Só que foi feito sem oferecer garantias de permanência com qualidade. Ou seja, não se fez acompanhar de um projeto que garantisse minimamente a qualidade do ensino que essa escola tem, reconhecidamente", destacou Ana de Oliveira, professora da unidade Tijuca e presidente da Associação de Docentes do Colégio Pedro II (ADCPII).

De acordo com o professor Raimundo Nascimento Dória, um dos coordenadores do Sindicato dos Servidores do Colégio Pedro II (Sindscope), esse é um problema que atinge toda a rede federal. Na opinião do sindicalista, construir novas unidades não é suficiente. Ele defende que também é preciso que elas contemplem as necessidades de um ensino de excelência. Para isso, ele acredita que a comunidade escolar deveria ter mais peso nas decisões.

"O governo teve recursos. Acontece que nem sempre o dinheiro resolve questões de natureza pedagógica. O administrador, seja federal, estadual ou municipal, pensa na construção de um prédio, mas não no que precisa ter lá dentro. Não somos consultados, é tudo feito à revelia da comunidade. É preciso ouvir aqueles que estão no dia a dia. A decisão tomada com compartilhamento de opiniões tem mais eficácia que as que vêm direto do gabinete", comentou.

Outra forte crítica é relacionada aos profissionais contratados temporariamente, principalmente os professores. A estimativa da ADCPII é de que 21% trabalhem nessa modalidade. O fato, na opinião de Ana de Oliveira, prejudica a continuidade do ensino, já que eles permanecem apenas por dois anos na instituição. "Não critico pela competência desses profissionais, que é ótima por sinal, mas pela própria relação de trabalho. O docente chega já sabendo que vai embora. A educação não pode ter um prazo, é um processo completo. A permanência do professor, vestir a camisa da escola, é algo que interfere sobremaneira no ensino que a instituição oferece", disse.

O quadro mais grave, segundo Denise Rezende, 1ª vice-presidente da ADCPII, acontece na educação infantil, na unidade Realengo, na zona oeste do Rio de Janeiro. Entre todos os professores lotados na unidade, apenas dois, de acordo com ela, são efetivos. "A educação infantil é um projeto novo. Foi a expansão de uma fase do ensino que está se colocando em curso com professores que, daqui a dois anos, sairão do colégio. Depois será gasto mais dinheiro público para formar outros que também deixarão a escola. Sem contar que, como é um regime provisório, alguns passam em outros processos seletivos e saem no meio do ano letivo, o que é pior ainda", afirmou a sindicalista, destacando que, há três anos, seu filho começa o ano sem professor. "Isso prejudica demais o processo educacional", completou.

Os problemas de pessoal também incomodam os servidores. Há 28 anos como psicopedagoga no CPII, Alice Gomes contou que, muitas vezes, é preciso exercer funções diferentes daquela para a qual foi selecionada. "Falta investimento em pessoal. Na unidade Centro, por exemplo, há poucos técnicos. Então, às vezes, trabalhamos muito, já que, em algumas situações, faltam inspetores nós precisamos ajudar. Trabalhamos com uma faixa etária a partir dos 10 anos, são crianças ainda. Não é qualquer um que pode atendê-los, é preciso um profissional da área", criticou.


Estudantes pedem mais cuidado com estrutura

Os principais interessados na qualidade do ensino, os alunos, também criticam a situação do colégio. Assim como os professores, reclamaram da expansão desordenada. O principal alvo dos estudantes é a infraestrutura, principalmente o forte calor, já que não há aparelhos de ar condicionado nas salas.

De acordo com João Pedro Bernardo, que está no 2º ano do ensino médio, algumas salas da unidade São Cristóvão têm goteiras quando chove, as paredes estão descascando e as pilastras aparentam má conservação. Contudo, a maior dificuldade enfrentada por eles é a alta temperatura em sala de aula.

"Imagina fazer uma prova em dezembro, com um calor absurdo? O desconforto é enorme. Tem gente que vai na sala do Setor de Supervisão e Orientação Pedagógica (SESOP) para se refrescar. Em média, temos três ventiladores em cada sala, só que em algumas só funciona o de teto, que é muito alto e quase não ventila. Passamos um sufoco enorme", informou o estudante, criticando a política de expansão do governo federal. "Não faz sentido ter uma unidade caindo aos pedaços e, mesmo assim, decidir abrir outra. O correto é zelar pelo que já existe", salientou.

Marcos Eduardo da Silva Junior, aluno do 2º ano da unidade de Duque de Caxias, fez coro com seu colega e se mostrou insatisfeito com a realidade atual do Pedro II. Entretanto, mesmo com as críticas, mostrou orgulho de seu colégio. "Olhando por fora é feio, mas por dentro os alunos são interessados e os professores são bons. Se depender só da infraestrutura, fica complicado. Mas levamos o CPII no nosso peito e é por ele que lutamos", falou.


Nomeação de reitora pro tempore gera polêmica


Em resposta ao comunicado divulgado no dia 13 de agosto, pela professora Vera Maria Rodrigues, ex-diretora-geral do Pedro II e recém nomeada reitora pro tempore pelo MEC, o Sindscope informou, através de nota, que repudia a medida, tomada sem debate com a comunidade escolar.

No documento, Vera Maria comemora a nova lei e afirma que conta com o apoio de todos para ajudar no processo de construção coletiva do novo estatuto do colégio. De acordo com ela, a aprovação do documento permitirá dotar o Pedro II de estrutura organizacional e de legislação condizentes com a oferta atual de diferentes modalidades de ensino.

A polêmica que envolve o processo eleitoral na instituição começou em junho, quando o colégio foi equiparado aos Institutos Federais de ensino, a partir da lei 12.677/12, que acaba com o cargo de diretor- geral e cria o de reitor. Com isso, a procuradora chefe da escola orientou o cancelamento do pleito, que já estava paralisado em razão da greve, com a alegação que o objeto da eleição, o cargo de diretor geral, foi extinto, uma vez que um instituto federal é gerido por um reitor.

No último dia 13, o MEC publicou uma portaria na qual a professora Vera Maria Ferreira Rodrigues era nomeada reitor pro tempore da instituição, e que terá como atribuições elaborar um novo estatuto para a escola e conduzir o processo de eleição de um Conselho Superior, que ficará responsável pela condução de um novo processo eleitoral.

Representantes de professores, funcionários e alunos, entretanto, não aceitam a decisão e, através das assembleias, se posicionaram contra a medida e passaram a reivindicar a continuidade das deliberações já aprovadas sobre as eleições, apenas com a alteração do cargo em disputa. Uma das principais queixas é justamente a nomeação de Vera Maria Ferreira, que era uma das candidatas no processo eleitoral inicialmente deflagrado para diretor, ao cargo de reitora pro tempore.

Em comunicado enviado pela Secretaria de Imprensa do Sindsprev/RJ, como forma de apoiar o comando de greve do Pedro II, é informado que o MEC teria assumido um compromisso com estudantes e professores de somente tomar qualquer decisão sobre o processo eleitoral 15 dias depois da greve e após consultar a comunidade estudantil. A reivindicação era de que a diretora interina Maria Helena Sampaio permanecesse no cargo até que as eleições fossem retomadas e o novo diretor eleito.


Só uma das metas do Ideb superadas

Os indicadores do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2011 mostram que as unidades do colégio avaliadas evoluíram nas duas últimas avaliações. Com exceção da Tijuca, no primeiro segmento, as outras (Humaitá e Engenho Novo) registraram Ideb maior em 2011 do que em 2009. No caso da unidade São Cristóvão, o dado não foi divulgado para as turmas de 1º ao 5º ano. O mesmo aconteceu na escola que funciona no Engenho Novo, só que para o segmento do 6º ao 9º ano.

Porém, quando se compara o quadro com as metas estabelecidas pelo MEC para a escola, o quadro é o inverso. Só na Unidade Tijuca, em turmas do 6º ao 9º ano, o parâmetro foi superado. A maior diferença ficou também na Tijuca, do 1º ao 5º ano, onde o desempenho da escola ficou seis pontos abaixo da meta.

Por: Renata - [email protected]
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