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Sobram formados faltam qualificados


Ao longo dos últimos anos, o Brasil vem se desenvolvendo em diversos setores estratégicos. O número de universidades e alunos no ensino superior cresceu. Ao mesmo tempo, o fortalecimento econômico do país é tratado com destaque em todo o planeta. Hoje, o mercado brasileiro é visto como um dos mais atrativos para o investimento de grandes empresas multinacionais.

Entretanto, especialistas apontam a falta de mão de obra qualificada como um dos principais entraves para a continuidade deste desenvolvimento. A dúvida que paira no ar é: como faltam profissionais se o número de estudantes de graduação tem aumentado? Uma pesquisa recente, realizada pela Pearson, com grandes empresas das principais economias emergentes do mundo, identificou que uma das respostas para a pergunta é o distanciamento entre as universidades e o setor produtivo. Segundo os empregadores brasileiros, nossos jovens não estão completamente preparados para assumirem os postos de trabalho quando se formam. Da mesma forma, a maior parte das pesquisas desenvolvidas nas instituições de ensino superior não têm como foco as demandas da iniciativa privada.

Apesar de ainda ser uma realidade um pouco distante na maioria das universidades brasileiras, muitas já perceberam a necessidade de estimular o empreendedorismo e aliar conhecimento e prática. No entanto, de acordo com Susane Garrido, diretora-executiva da Universidade Estácio de Sá, as instituições de ensino ainda são muito fechadas. "Precisamos discutir de qual perspectiva real a universidade deve se posicionar na formação interna para fazer com que seus alunos sejam empreendedores. Por mais que ainda falte financiamento por parte do setor produtivo, acredito que nós, das universidades, ainda temos uma suspeita muito grande em atendê-lo. Nós ainda não conseguimos dar conta daquilo que, de fato, está acontecendo no mercado", opinou, durante o 10º Fórum Universitário Pearson, realizado no dia 31 de maio, no Centro de Convenções Sulamérica.

O professor Antônio Freitas, um dos palestrantes, lembrou que, nos últimos anos, uma série de empresas estão se instalando na Ilha do Fundão, onde fica boa parte dos cursos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Contudo, antes de cobrar inovações dos alunos e pesquisas voltadas para as demandas da indústria, de acordo com ele, é necessário reinventar as universidades brasileiras, haja vista as mudanças no mundo globalizado, que afetam docentes e alunos, avanços tecnológicos e transformações nos métodos de ensino. "Vivemos em uma sociedade mais competitiva, com mais disparidades e com maior interação. Temos que acompanhar as mudanças e fazer das instituições de ensino facilitadoras do aprendizado, e não apenas provedoras de conhecimentos", comentou.


Interação exige cuidados na administração de interesses

De um projeto acadêmico de dois universitários, Larry Page e Sergey Brin, nasceu uma gigante da internet. O Google tem suas origens na Universidade de Stanford, localizada na Califórnia, na região conhecida como Palo Alto. Este, talvez, seja um dos maiores exemplos de como as instituições de ensino podem exercer o papel de encubadoras de futuras grandes empresas. Boas ideias e espírito empreendedor, entretanto, não são suficientes quando não há recursos financeiros.

Segundo o professor-assistente do Departamento de Ciências e Engenharia e líder de núcleos de parcerias universidade-empresa da Universidade de Stanford, Charles Eesley, o crescimento só foi possível porque alguns ex-alunos se interessaram e investiram no projeto. Os benefícios, de acordo com ele, são muitos, e até hoje existe um vínculo muito forte entre o Google e a Stanford. "A universidade serviu de encubadora, então a empresa financia bolsas e contrata alguns alunos. Quando agregamos atividades empreendedoras, o impacto é impressionante. Temos várias empresas de ex-alunos gerando empregos e movimentando a economia", contou.

Entretanto, Eesley lembrou que a interação entre o setor produtivo e o acadêmico não é tão simples. Existem vários casos de fracassos gerados por conflitos entre as partes, como problemas de propriedade intelectual e tempo de dedicação dos estudantes para a empresa ou para a universidade, por exemplo. Por isso, o especialista pede atenção nessa simbiose. "Não queremos que a universidade vire companhia. A autonomia deve ser mantida. É uma questão que exige atenção. Em alguns casos, o interesse da indústria pode não ser o mesmo do povo. Mesmo com grandes vantagens, essa equação precisa ser resolvida com cuidado, pois há possibilidade de dar errado. As pesquisas devem, fundamentalmente, proporcionar benefícios sociais", afirmou.

Michael Stanton, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento na Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), ressaltou que vê nos professores o desejo de produzir algo útil dentro do ambiente universitário, sem precisar sair para empresas. Segundo Stanton, esse envolvimento gera apenas benefícios. "Minha experiência mostra que não há problemas, pelo contrário. Os dois lados podem se alimentar e isso é bom para todos", destacou.


Um olhar estrangeiro sobre a educação brasileira

Uma das questões pontuais tratada no 10º Fórum Universitário Pearson foi o nível de inovação e empreendedorismo no ensino superior e o impacto dele na educação brasileira. Para isso, palestrantes nacionais e internacionais tiveram um momento de convergência de conhecimento, no qual foi analisado o atual panorama da educação nacional, através de um diálogo com a experiência internacional.

Uma das análises feita durante o encontro foram os fatores que promovem e os que dificultam as aproximações entre as instituições brasileiras de ensino superior e a iniciativa privada nacional. De acordo com a Pearson, uma empresa educacional britânica, presente em 65 países, o número de experiências e sua respectiva repercussão na sociedade brasileira ainda são pouco expressivos. Já nos outros países, a interação entre os dois setores é uma vantagem, que gera encomenda de pesquisas e também doações para a construção do aparelhamento de laboratórios e hospitais, além de investimentos em eventos culturais.

Segundo a chefe de gabinete da Pearson, Katelyn R. Donnelly, o mundo do século XXI tem uma demanda forte por cidadãos ligados à pluralidade. Por isso, são necessários, cada vez mais, centros que incentivem a diversidade, que ensinem as pessoas a conviverem com as variadas culturas e a aprender a lidar melhor com os recursos dos quais dispõem. Ou seja, ferramentas que ajudem a nova geração a pensar, desenvolver a capacidade cognitiva e a atuar com liderança. "No Brasil, apenas 10% da população tem acesso à faculdade. Na Finlândia, esse mesmo índice é de 70%. Isso significa que, se o Brasil quiser evoluir, vai precisar facilitar a entrada dos jovens na educação superior. As universidades do futuro terão que estar prontas para criar alunos globais, incentivados a pensar seus valores e a encarar o mercado. Também precisarão ter como foco a transmissão de valores e de conteúdos, mas de maneira multidisciplinar", salientou Katelyn.

Para a educadora, o papel na universidade precisa ser modificado, assim como o papel do governo do que diz respeito ao investimento. O primeiro passo para isso, seria uma interação maior com as instituições educacionais internacionais. "Na geração de líderes, a universidade terá que deixar de ser uma mera transmissora para ser criadora do conhecimento, promovendo o crescimento econômico e a geração de empregos. Elas terão o papel de solucionadoras dos problemas da humanidade. O investimento na Educação, para ser eficiente, precisa começar dos níveis mais baixos do ensino. Precisa haver uma melhoria no acesso ao sistema público e, não só isso, igualá-lo à qualidade das escolas particulares. Não deve haver essa distorção. Vários países hoje têm programas em comum e o Brasil precisa ser inserido nesse processo", salientou.

Um assunto que recebeu destaque foi o Ensino a Distância. Ainda incipiente no Brasil, a modalidade de ensino tem sido vantajosa, no sentido de que, além de reduzir os custos, amplia o acesso e insere também a população mais desfavorecida economicamente ou que se concentra distante dos grandes centros. De acordo com Katelyn, o país ainda precisa seguir alguns passos afim de absorver toda a oferta do EaD. "A primeira coisa que deve ser feita é o desenvolvimento em infraestrutura. Para isso, são necessários profissionais capacitados. O segundo passo é atingir as pessoas mais velhas, que estão longe das salas de aula há um tempo considerável e que compõem um grande número. Em terceiro lugar, precisamos mostrar aos jovens que saem das universidades que a EaD é uma ferramenta que pode auxiliá-los e que é benéfica por permitir que se atualizem sempre", comentou.


Opinião: o que falta para a interação entre universidades e setor produtivo?

"Não vejo preconceito das universidades, mas sim das empresas. Aqui no Brasil, diferente de outros países, elas não estão alinhadas ao ensino. Querem pegar o sujeito já com experiência, mas não estão dispostas a investir no ensino, como acontece, particularmente, nos Estados Unidos. O motivo, talvez, seja o fato de o Brasil sempre trazer inteligência de fora e, portanto, não ter um trabalho de criação interno. Não é um problema genético, é questão de oportunidade. Porém, situações assim demonstram falhas de ambos os lados. Ao meu ver, as universidades ainda resistem, porque são muito preocupadas com a teoria e pouco atentas à preparação propriamente dita do aluno para o mercado de trabalho."
Carlos Lugati, professor da Estácio de Sá

"A importância do investimento do setor privado nos projetos universitários é muito grande. É fundamental que invistam em pesquisas e estimulem o empreendedorismo. O problema é que ainda falta criar essa cultura aqui no Brasil. Um país sem pesquisa não anda. O setor produtivo precisa dar mais atenção para essa questão e, por outro lado, as instituições de ensino devem estar dispostas a realizarem parcerias e, assim, promover programas aliando os interesses de ambas as partes."
Marcelo Baêta, professor da Estácio de Sá

Acredito que a universidade precisa se aproximar da sociedade e do setor produtivo. É preciso levantar as necessidades e levá-las para o ambiente acadêmico. A partir da criatividade do corpo discente e docente, é essencial buscar ideias inovadoras e apresentar soluções que possam fazer a diferença junto às empresas. É um caminho que possibilitará o crescimento sustentável do nosso país. O problema é que ainda existem obstáculos de ambas as partes. É claro que existem muitos desafios, mas os dois precisam buscar essa aproximação para formarmos pessoas empreendedoras, capazes de gerar empregos e recursos para o país.
Geraldo Mendes Gutian, professor da Faculdade Dom Bosco e da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman)

A universidade é o local da excelência, onde a interação deve acontecer. Quando falamos dela, falamos de ensino, pesquisa, extensão e desenvolvimento. Então, as demandas da sociedade devem ser discutidas lá dentro. Charles Eesley nos mostrou que a interação entre governo, universidade e mercado é a melhor opção. Os centros de pesquisas recebem aporte financeiro para pesquisas e o país ganha com novas ferramentas e tecnologias. No Brasil, ainda falta que o governo e as empresas deem um voto de confiança para as instituições de ensino superior, principalmente as privadas.
Mario Esteves, diretor da Faculdade de Engenharia de Resende - Dom Bosco

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