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Um ano depois, a difícil tarefa de seguir em frente


O dia 7 de abril de 2011 ficará marcado para sempre na memória do povo carioca, mais especificamente dos moradores do bairro de Realengo, na Zona Oeste. No início da manhã deste dia, um homem de 23 anos entrou na Escola Municipal Tasso da Silveira e atirou contra alunos em salas de aula lotadas. O crime chocou o país: 12 crianças e adolescentes perderam suas vidas, enquanto dezenas de estudantes ficaram feridos.

Um ano após a tragédia, os resquícios ainda são latentes na mente dos estudantes, pais e professores. As marcas são visíveis no entorno da escola, que foi totalmente remodelada e reformada para tentar apagar os momentos de pânico daquela quinta-feira de abril.
 
Se as mudanças são fáceis de serem percebidas a olho nu, eliminar as lembranças do fatídico episódio ainda é difícil. A estudante Brenda Rocha, de 14 anos, foi atingida por seis disparos do atirador Wellington Menezes de Oliveira. As marcas são visíveis em algumas partes de seu corpo, como as mãos e as costas, porém o mais complicado é lembrar de sua irmã gêmea Bianca, uma das vítimas fatais.

"Foi muito difícil voltar a estudar aqui, principalmente pela falta que minha irmã faz. Medo não tenho, sinto mais saudade. Não me sinto totalmente segura no colégio, fico encucada com as grades, muitas pessoas de fora encostam nela e pode vir a acontecer alguma coisa. Essas grades não existiam antes e não me deixam mais seguras aqui", lamenta a jovem.

Brenda Rocha comenta que demorou um tempo a voltar a estudar, mas escolheu uma outra escola. No entanto, não se sentiu bem e voltou a Tasso da Silveira por causa das amigas. "Ainda não estou muito bem, mas já estou melhor que no outro colégio. A mudança visual da escola conseguiu apagar um pouco a tragédia da memória, não reconheço sempre a escola quando olho agora", explica.

O tempo é o principal remédio para que as boas lembranças voltem a frequentar o imaginário de todos que faziam parte da comunidade escolar da Tasso da Silveira no ano passado. Para o estudante Allan Rodrigues, o pior trauma ocorreu nos meses seguintes à tragédia, quando as lembranças ainda estavam vivas na memória.

"Ficou um trauma nos estudantes depois do ocorrido, mas acredito que agora já não tenha mais tanto. As pessoas já estão esquecendo, o medo está indo embora. Mas no início foi muito complicado. Para a escola esquecer desse episódio, foi fundamental que se mudasse a aparência, com um aspecto mais leve, a realização de atividades, como capoeira, jiu-jitsu. Antigamente, não tinha nada disso", avalia Allan, que não faz mais parte do quadro discente do colégio, pois concluiu o ensino fundamental.

Trauma difícil de superar também para as famílias

Não foram apenas os estudantes da Tasso da Silveira que ficaram receosos em voltar à escola. Alguns pais relutaram em levar seus filhos para estudar novamente lá, tantos que alguns se transferiram para outras unidades.

Apesar de temerosa, Andreia dos Santos vê nos estudos a única forma de construir um futuro brilhante. Essa foi a explicação que deu a seu filho Jonathan dos Santos Muniz, que não queria voltar a estudar no colégio. "Meu filho ficou com medo, não queria vir mais para a escola. Tive que conversar muito com ele para ele voltar a frequentar as salas de aula. Uma criança sem estudo não tem futuro. Ele conhecia alguns alunos que foram mortos, as crianças ficam um pouco assombradas com tudo que aconteceu. Eram muito amigos. Está muito recente ainda, só tem um ano. Até esquecer totalmente, vai demorar um pouco. Mas tem que vir estudar, isso não pode atrapalhar o futuro deles."

Andreia acrescenta ainda que no dia da invasão, Jonathan não estava presente. "Nesse dia, ele iria para o reforço escolar na parte da manhã. Ele quase não falta aula, principalmente porque moramos muito perto da escola. Porém, ele resolveu ficar em casa. E ocorreu exatamente no dia em que ele não foi. Foi uma agonia ver toda aquela cena. Não gosto nem de lembrar, chega a me arrepiar", recorda.

Iracema Gonçalves Lima conta o drama que passou ao saber, pela televisão, do massacre na Tasso da Silveira. Seu neto, Gabriel Lima, estava no local, e as notícias que chegavam não eram animadoras. "Foi muito angustiante, Deus me livre. A minha filha e meu genro foram para escola para receber notícias do meu neto. Fiquei em estado de nervos, ia na rua, voltava. Fiquei com muito medo. Via as crianças chorando, falando que seus amiguinhos tinham morrido. Até que minha filha chegou com ele. De qualquer forma, é uma tristeza imensa, ver tanta criança morrendo. No início das aulas desse ano, ele ficou tristinho novamente, pois as suas aulas estão ocorrendo onde o atirador começou a matar."
 
Ano letivo distinto na escola

O início do ano letivo na Tasso da Silveira foi diferente em 2012. Com todo o simbolismo pelos acontecimentos de abril do ano passado, o prefeito Eduardo Paes e a secretária de Educação, Claudia Costin, foram à escola dar o pontapé inicial das aulas em toda a rede municipal. A grande novidade foi a reforma estrutural e a construção do prédio anexo, para abrigar melhor os alunos.

As obras realizadas pela RioUrbe, empresa vinculada a Secretaria Municipal de Obras, adequaram a unidade ao modelo de escola padrão, além de proporcionar a descaracterização do local em que houve a morte de 12 crianças em abril do ano passado.

A Prefeitura investiu R$9 milhões. Foram feitas várias intervenções no local. A começar pela mudança do acesso principal para a Rua Jornalista Marques Lisboa. A sala de aula onde ocorreu a tragédia teve as paredes demolidas e virou área de passagem para um prédio em anexo, que possui quatro andares e conta com sala de informática, biblioteca, laboratório de ciências, auditório com capacidade para 100 pessoas, além de uma sala multiuso para aulas de dança e karatê.

O acesso é feito por meio de passarelas cobertas que terão ligação com todos os andares do prédio principal da escola, além de escada e elevador para acesso de pessoas deficientes, através de um grande pilotis no pavimento térreo.

A reforma também atingiu o prédio principal. As 15 salas de aula foram equipadas com novos quadros escolares, murais, armários, instalações para computadores e projetores. Todas as salas foram equipadas com ar condicionado e forro acústico. A fachada principal ganhou destaque com um trabalho em mosaico feito pelos alunos e funcionários, o que fez com que eles se sentissem parte da reconstrução da escola. O grande painel leva os dizeres "Escola Agora, Escola Ágora". Além disso, um painel com mais de mil azulejos pintados pela comunidade escolar foi instalado do pátio até a parte externa da escola. O espaço externo abrigará a sequência do painel, equipamentos de ginástica para a terceira idade e mesas de jogos.

Apesar da tragédia, novos estudantes ingressaram na Tasso da Silveira. "Nós tivemos cerca de 40 alunos que acabaram saindo, fora os alunos do 9° Ano que se formaram no ensino fundamental, mas, em compensação, tivemos cerca de 100 novos estudantes inscritos. Essa escola formou muita gente que tem orgulho de dizer que estudou aqui. Tem uma triste lembrança que vai ficar na história da escola, que é difícil de superar, mas que com o tempo vamos conseguir", afirmou Claudia Costin.

Opinião

Um ano depois, como lidar com a tragédia da Escola Tasso?

"O problema da violência está tomando grandes proporções no mundo. Vimos o caso mais recente dos Estados Unidos. É um certo contágio do que essas pessoas vivem na sociedade, ausência dos pais na escola. Não temos na saúde pública atendimentos psicológicos, que poderiam auxiliar o trabalho dos professores. Toda a comunidade acadêmica está voltada para esse tema, que está mexendo com os alicerces da sociedade e, nos últimos anos, com as escolas. Para superar o trauma da escola de Realengo, o tempo é o remédio. Pintar a escola, fazer recreação e tratar os alunos os professores são apenas alguns dos passos. A mudança de conduta de todos é o principal. A convivência deve ser mais intensa, uma aliança entre os pais, professores, alunos, gestores educacionais, para que se possa vencer essas crises."
Fátima Cunha - Consultora da Fundação Cesgranrio e ex-secretária estadual de Educação do Rio de Janeiro

"A Secretaria Municipal de Educação estabeleceu medidas para serem trabalhadas na recuperação dos envolvidos no episódio da Tasso da Silveira. Para além disso, é importante discutir e avaliar todas as questões presentes em nossa sociedade, como a violência, drogas, agressividade, questões do trabalho, necessidades e interesses dos jovens. Para os estudantes, não deve haver medidas drásticas, como instalação de detectores de metais nas escolas, mas é preciso ter meios e procedimentos para entrada de outras pessoas na escola. Para superar esse trauma, somente trabalhando esse momento, não resgatando a tragédia, a dor, o desespero, mas, sim, as razões e as causas desse grande e grave episódio."
Miriam Paura - Professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)

A recuperação se deu em torno da necessidade de superação das adversidades. Um coletivo de profissionais e familiares, que juntos buscaram soluções comuns a partir de seus diferentes pontos de vista. O cuidado e o rigor com a identificação de quem entra e sai da escola deveria ser norma cotidiana e preventiva, pressupondo maior número de inspetores, entre outros profissionais da educação. No entanto, é preciso atenção. Ela não pode ser vista como delegacia ou prisão. Os sujeitos da escola não podem permanecer enclausurados. O objetivo é ensinar e aprender, formar cidadãos plenos em seus direitos e deveres, formar ser humanos éticos para o convívio social. Cabe ao Estado a segurança pública através de outras instituições."
Sandra Santos - Diretora-geral do Instituto de Educação do Estado do Rio de Janeiro (Iserj)

"A violência é sistêmica. É um problema da cidade e a escola acaba refém. No Brasil, só observamos academicamente o aluno. Identificamos apenas o lado de dentro da sala de aula, se ele sabe ler e escrever, se tem dificuldades de aprendizado. Quando tivermos uma visão mais ampla do que é a criança, teremos mais condições de entendermos os problemas psicológicos que um aluno enfrenta no dia a dia. Temos que ter uma avaliação mais ampliada, com indicadores de quem ele é. Essa é a lição que temos que tirar desse ano da tragédia. Infelizmente, não é possível superar esse trauma. É importante as pessoas serem felizes, a vida tem que seguir. Mas não foi só aquela escola, alunos e famílias que foram atingidas, mas todos os professores e discentes; Todos nós."
Sueli de Lima - Coordenadora-geral da Ong Casa da Arte de Educar

"Considero o caso da Escola Tasso da Silveira como uma excepcionalidade. Aquele jovem que entrou atirando tem o cérebro quimicamente mal organizado. Isso não pode ilustrar o comportamento geral dos alunos nas escolas. É uma situação totalmente anormal. Na minha avaliação, não pode servir como padrão. Não se pode analisar momentos episódicos como exemplo de uma época. A escola sofreu diversas modificações ao longo desse último ano, após a tragédia. Mas, transformá-la em uma fortaleza, deturpa a própria concepção de escola. Não me parece que seja o caminho correto classificar esse caso como não sendo excepcional. Assim como na Noruega, com o caso do atirador, não posso rotular esse país como violento. Generalizar um caso excepcional não é a melhor saída."
João Pessoa de Albuquerque, integrante do Conselho Estadual de Educação

Por: Marcella Dos - [email protected]
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