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Universidades em ebulição


O ambiente universitário, há muito, não vivia tamanho clima de ebulição. Uma greve nacional iniciada em 17 de maio já atinge quase todas as instituições federais de ensino superior do país. Não há levantamentos específicos para as escolas federais, porém, pelo fato de a maioria estar vinculada às universidades, a estimativa é de que boa parte dos profissionais destas instituições também estejam de braços cruzados.

Há muito tempo que uma greve no setor educacional não tinha tanto alcance. Segundo dados do Andes-SN, estão paralisados 95% das universidades federais, 95% dos Institutos Federais de Educação Tecnológica e todos os Centros Federais de Educação Tecnológica. O curioso, no entanto, é que a explicação para tanto tempo sem mobilizações com a proporção assistida hoje parece ser justamente uma das principais causas da atual greve.

Durante os dois governos do ex-presidente Lula, as universidades receberam investimentos da ordem de R$2 bilhões, a partir do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, o Reuni. Com os recursos, veio a esperança de um processo que fizesse do modelo implantado nas principais universidades brasileiras e referência para a expansão do acesso ao ensino superior público no país.

Porém, com o passar dos anos, o que era esperança transformou-se, em boa parte dos casos, decepção. Obras inacabadas, utilização de contratações temporárias, abertura de vagas em concursos para docentes e técnicos em proporção bem menor que a criação de vagas para novos alunos, entre outros fatores, minaram a relação, até então sem muitos conflitos, que existia entre o governo federal e as associações de docentes.

A gota d'água para governo e profissionais de educação do setor federal ficassem, agora, de lados opostos, é a indefinição sobre as mudanças na carreira e de perspectivas de reajuste salarial. Em negociação desde o ano passado, as partes ainda não chegaram a um acordo sobre o regime de progressão funcional nas instituições mantidas pela União.

Profissionais realizam ato por mais investimento

Um novo capítulo desta queda de braço entre governo e profissionais de educação, e que mostrou a força da greve nacional, ocorreu no último dia 28. Professores, técnicos-administrativos e estudantes em greve promoveram uma marcha em direção às sedes regionais do Banco Central em todas as capitais do país. No Rio de Janeiro, o protesto saiu da Candelária e percorreu um trecho da Avenida Presidente Vargas, no Centro da cidade. Os manifestantes, acompanhados por um carro de som, carregavam faixas e bandeiras e gritavam palavras de ordem exigindo mais recursos para a educação.

De acordo com os organizadores, a intenção era mostrar à sociedade que, enquanto o governo destina 3,1% para o ensino superior do país, segmento essencial para o desenvolvimento, direciona uma parcela bem maior das verbas de arrecadação de impostos para o pagamento de juros e dívidas aos bancos.

"O que queremos denunciar é que o governo prioriza o pagamento de juros em detrimento do investimento em políticas sociais. Enquanto quase metade vai para o pagamento da dívida pública, para a educação, por exemplo, sobra 3%. Para a saúde, a mesma coisa. Para moradia, nada. Nos últimos, houve um aumento na arrecadação de impostos. Sobra dinheiro. A intenção do ato é mostrar que existe essa opção política", afirmou Sonia Lucio Rodrigues de Lima, secretária da regional do Andes-SN do Rio.


"O Brasil se tornou um adolescente irresponsável"

Além disso, os organizadores ainda apontam que, segundo o Relatório de Gestão Fiscal do poder de 2011, o governo dispunha de R$464.278 bilhões em caixa, livre de qualquer empenho. Caso os docentes do ensino superior, ativos e inativos, tivessem suas reivindicações atendidas, segundo estimativa do Andes-SN, o impacto seria de R$7 bilhões, valor que corresponde a 1,5% das disponibilidade de caixa anual do Tesouro.

"O governo reserva a boa parte de sua campanha publicitária para falar sobre avanços na educação, mas nunca mostra os alunos que estudam em contêineres, as instituições que não têm sala para todos, a falta de professores, etc. Dinheiro existe, o problema é o seu destino. Costumo dizer que o Brasil se tornou um adolescente irresponsável. Não pensa em saúde, em educação e cultura, só quer saber de futebol e olimpíada", reclamou Fabiano Godinho Faria, coordenador geral do Sindicato dos profissionais do Centro Federal de Educação Tecnológica de Química (Sindcefeteq), uma das sessões do Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica (Sinasefe).

Segundo Pedro Rosa, coordenador de educação da Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores das Universidades Públicas Brasileiras (Fasubra), a entidade fez 52 tentativas de negociar antes de deflagrar a greve. Isso, de acordo com ele, mostra um descaso com a educação. "Nenhum país ocupa o posto de 6ª maior economia do mundo sem ter dinheiro. Em uma semana, só com o pagamento de dívidas com banqueiros, é gasto o equivalente ao orçamento das 59 universidades federais o ano inteiro. Foi uma escolha política que fizeram. Então, cabe a nós reagir", salientou o sindicalista.


Professores e alunos criticam situação das instituições federais


Docentes, técnico-administrativos e alunos aproveitaram a passeata para pleitear melhoria das condições de suas universidades. Entre as principais críticas, estavam o crescimento sem criação da infraestrutura necessária, a partir do Reuni, e desvalorização dos profissionais da educação.

Para José Henrique Sanglard, diretor da Seção Sindical dos Docentes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Adufrj), as carreiras têm sido desvalorizadas ao longo dos últimos anos. De acordo com ele, algumas unidades enfrentam sérios problemas de estrutura, inclusive com falta de locais para aulas.

"Na Praia Vermelha, por exemplo, alguns alunos tem aula em contêineres. Eles são alugados, são caros, mas, por incrível que pareça, eles preferem, já que são melhores que as salas. Em Medicina, algumas aulas são ministradas em verdadeiros porões e subsolos. Isso, obviamente, interfere na qualidade do trabalho e de estudo para os alunos", criticou o sindicalista, que também alertou para a evasão de docentes e, principalmente, de técnico-administrativos. "Geralmente, vão para outros empregos em curto espaço de tempo. Não há atratividade nas carreiras, o que gera dificuldade na recomposição do quadro permanente da universidade", completou.

O problema foi confirmado por Noemi Andrade, coordenadora geral do Sindicato dos Trabalhadores em Educação da UFRJ (Sintufrj). Segundo ela, há dois anos, os técnicos não têm nenhum reajuste e continuam sem previsão de negociação. "Nossa reivindicação é para que tenhamos condições de trabalhar. A educação não pode sofrer com perdas salariais. Precisamos de carreira para os técnicos, concursos públicos atrativos, que as universidades deixem de ser apenas uma passagem, porque o nosso salário é o pior do serviço público federal", reclamou.


Alunos reclamam das condições de ensino

Taís Lara, aluna de Gestão Pública da UFRJ, fez coro com Sanglard em relação aos problemas estruturais apontados por ele dentro da instituição. Na opinião da universitária, o Reuni não aplica verbas suficientes para que haja um crescimento guiado pela qualidade. "No meu curso, por exemplo, não temos salas próprias. Vemos o mesmo acontecer com outros, que sequer têm prédios. Sofremos com a falta de professores e uma série de dificuldades que são resultado dessa falta de investimento. Quem faz Medicina e Enfermagem sofre com condições insalubres. O hospital do Fundão está caindo aos pedaços, cada dia uma área é demolida por falta de reformas e valorização da educação e da saúde", lamentou.

As reclamações não se restringem ao ensino superior federal. O ensino técnico também enfrenta dificuldades. Aluna do curso de Técnico em Segurança do Trabalho do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ), campus São Gonçalo, Cynthia Fernandes revelou que faltam bandejão e salas para comportar todos os estudantes. "E os problemas não se restringem ao nosso campus, é do IFRJ em geral. Queremos também melhores condições para os professores. Se eles não forem valorizados, consequentemente, nós também não seremos e não teremos uma educação de boa qualidade", disse.

Por: Renata - [email protected]
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